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NAVARRA - Panteón dos Primeiros Reis de Navarra no MONASTERIO de LEYRE

  • Apr 27
  • 7 min read

Updated: Jul 12

Continuo a minha peregrinação pelo antigo Reino de Navarra. Uma viagem pelas montanhas me levou ao Monasterio de San Salvador de Leyre, um dos principais mosteiros medievais da Península Ibérica. Fica a cerca de 50 km de Pamplona, numa localização magnífica, com vista para os Pirineus e para a represa de Yesa, que forma um lago entre Navarra e Aragón. É um mosteiro beneditino conhecido pela sua atmosfera tranquila e pelo canto gregoriano dos seus monges. Dispõe de uma hospedaria para peregrinos e visitantes que buscam silêncio e reflexão. Os monges beneditinos criaram essa opção de hospedagem porque o mosteiro fica a 12 km de uma das rotas principais do Caminho de Santiago, o ramo aragonês. Apesar da sua distância do roteiro tradicional, o mosteiro tornou-se um destino espiritual para os peregrinos.


A arca que guarda os restos dos primeiros reis e rainhas de Navarra
A arca que guarda os restos dos primeiros reis e rainhas de Navarra

O Mosteiro de San Salvador de Leyre tem dez séculos de existência e abriga uma comunidade de monges cuja espiritualidade alimenta-se da história, da arte e da natureza. Tornou-se um ícone espiritual do antigo Reino de Navarra porque contém os restos mortais dos primeiros reis e rainhas que viveram no século IX. Naquela época era Reino de Pamplona, só ficou conhecido como Reino de Navarra no início do século XVI. A mudança de nome reflete mudanças políticas e territoriais que ocorreram a partir da invasão de Castela em 1512. A despeito dessas mudanças, o Reino de Navarra sempre conservou a sua identidade cultural, seus laços históricos e sua herança basca e hispânica.


Além da sua importância histórica, o Mosteiro de Leyre tem grande valor arquitetônico: é um dos primeiros exemplos do românico em Navarra e está em excelente estado de conservação. A Igreja do Mosteiro, dedicada à Virgem de Leyre, começou a ser construída no século XI por ordem do rei Sancho III e só foi concluída no século XV.


A construção românica do Mosteiro de Leyre fica bem evidente nessa foto dos fundos da capela
A construção românica do Mosteiro de Leyre fica bem evidente nessa foto dos fundos da capela

Eu não poderia perder a oportunidade de visitar o Mosteiro de Leyre e o Panteón dos Primeiros Reis de Navarra, porque os nomes de muitos desses reis estão na árvore genealógica da minha família. São os nossos ancestrais mais remotos. Começaram a ser sepultados na Igreja do Mosteiro de Leyre desde o início da sua construção. Infelizmente, aconteceu em Navarra o mesmo problema descrito no artigo sobre o Panteón dos Reis de León no Mosteiro de San Isidoro: a certa altura da história da Espanha, houve um processo de desamortización, em que o governo passou a confiscar e vender os bens da Igreja. As igrejas foram invadidas, os túmulos foram profanados, e restos mortais de reis e rainhas foram espalhados e misturados. Felizmente, a coleção de restos mortais do Mosteiro de Leyre foi reunida e depositada numa belíssima arca, que hoje está localizada em lugar de destaque dentro da igreja. Em datas especiais, o governo de Navarra presta-lhes as devidas homenagens.


Para que faça sentido apresentar a vocês a lista de nomes dos primeiros reis de Navarra cujos restos estão sepultados na Arca do Mosteiro de Leyre, é preciso falar um pouco sobre as origens do Reino de Navarra e dizer que os Bascos e os Francos carolíngios (família de Carlos Magno) estão envolvidos nessa história. O antigo Reino de Navarra teve seu berço na região montanhosa dos Pirineus, com seus vales, florestas e aldeias encantadoras, que faz parte do Caminho de Santiago. Ali se encontra Roncesvalles, que é a entrada do "caminho francês" na Espanha. Para os peregrinos, essa cidade marca o início da jornada espanhola, depois da desafiadora travessia dos Pirineus que começa em Saint-Jean-Pied-de-Port. Para os historiadores, Roncesvalles está ligada à figura de Carlos Magno e à sua ambição de conquistar os territórios ao sul dos Pirineus.


As atuais províncias de Navarra, Aragón e Cataluña ficam ao sul dos Pirineus e sofreram constantes ameaças de invasão dos francos carolíngios. Em 778 Carlos Magno quis conquistar Saragoza e não conseguiu, mas destruiu Pamplona. No seu caminho de volta, sofreu uma emboscada e enfrentou os Bascos na 1ª Batalha de Roncesvalles. Fugiu, mas voltou depois. Em 785 conquistou Gerona. Em 801 seu filho Ludovico Pio conquistou Barcelona. Em 810 ocupou a zona dos Pirineus Médios e em 812 conquistou Pamplona. Essas conquistas resultaram na formação da Marca Hispanica: uma zona composta por vários condados autônomos que funcionavam como pontos de defesa contra o avanço dos mouros e como base de operações para a expansão do poder franco na Península Ibérica. Esses pequenos condados prestavam vassalagem ao monarca carolíngio da vez...


Os condados mais importantes foram Pamplona, Aragón, Sobrarbe e Ribagorza (origem dos Reinos de Navarra e Aragón) e os "condados catalanes" de Rosellón, Osona, Urgel, Cerdaña, Gerona e Barcelona. O destino desses territórios é complicado. Rosellón hoje pertence à França. Osona foi incorporada a Barcelona. Urgel pertence à atual província de Lérida. Cerdaña foi dividida: uma parte pertence a Lérida e a outra à França. Gerona foi incorporada a Barcelona e depois uniu-se ao Reino de Aragón. Os mapas modificam-se com o tempo...

"Condados Catalanes" que formavam a Marca Hispanica - em amarelo estão os que foram governados por um famoso chefe militar visigodo: Borrell I Conde de Osona, Urgel e Cerdaña
"Condados Catalanes" que formavam a Marca Hispanica - em amarelo estão os que foram governados por um famoso chefe militar visigodo: Borrell I Conde de Osona, Urgel e Cerdaña

Acima foi dito que Gerona foi incorporada a Barcelona. Acrescento que eram os dois condados mais importantes, porque tinham saída para o mar. A história da união do Condado de Barcelona ao Reino de Aragón é bem interessante e merece um artigo separado. Será o próximo dessa série: Dona PETRONILLA de ARAGÓN e RAMÓN BERENGUER IV de BARCELONA, uma história que merecia um filme! Tenho certeza de que vocês vão gostar. Aguardem.

Voltamos à questão da origem do Reino de Navarra, que começou como Reino de Pamplona. Uma história complexa, com certos detalhes importantes sobre os quais nem os próprios historiadores espanhóis concordam. Começa numa região ao norte dos Pirineus: a Gascogne (em francês) ou Vasconia (em castelhano). Ali viviam várias tribos que se comunicavam numa língua semelhante ao idioma basco (euskera). Esses povos atravessaram os Pirineus e estabeleceram-se no nordeste da Espanha, onde já havia outras tribos que falavam outras línguas.


Pamplona é um nome latino que deriva de Pompeu, o general romano que fundou a cidade sobre um antigo povoado basco que se chamava Iruña. A atual capital da província de Navarra reflete uma fusão da presença dos romanos com a sua herança cultural basca. A cidade de Pamplona é também chamada de Iruña. Totalmente bicultural e bilíngue, com cartazes indicativos escritos nas duas línguas: castelhano e "euskera" (basco).


Mas voltemos à história do lugar. Pamplona era defendida dos invasores por um caudilho militar chamado Jimeno "el Fuerte", que em 812 não resistiu à invasão de Ludovico Pio, filho de Carlos Magno, e aceitou ser vassalo dos carolíngios em troca de proteção contra os mouros. O chefe militar seguinte foi Velasco "el Gascón", que foi derrotado pelo Emir de Córdoba Al-Hakam em 816. Então, vemos Pamplona fundada por romanos, ocupada por bascos, depois por francos, e depois pelos mouros. Sempre esteve povoada por raças e culturas diferentes, que falavam idiomas diferentes. Isso explica o que revelei no parágrafo anterior.


Não há como se falar em "reis" antes de 836. Os líderes anteriores eram caudilhos militares, como Jimeno "el Fuerte" e Velasco "el Gascón". O primeiro líder considerado "rei" dos pamploneses foi IÑIGO ARISTA, o fundador da primeira dinastia. As dinastias Arista (ou Iñiga) e Jimena foram duas dinastias reais sucessivas que fundaram e consolidaram o Reino de Pamplona entre os séculos IX e XIII. A dinastia Arista foi iniciada por IÑIGO ARISTA, que estabeleceu um núcleo basco independente que reinou desde 836 até 905. A dinastia Jimena iniciada por SANCHO GARCÉS I expandiu o reino durante a Reconquista e reinou de 905 a 1234.



Nesta arca repousam, desde 8 de julho de 1915, os restos mortais dos 10 primeiros reis de Navarra, de 7 rainhas não-nomeadas e de 2 príncipes.
Nesta arca repousam, desde 8 de julho de 1915, os restos mortais dos 10 primeiros reis de Navarra, de 7 rainhas não-nomeadas e de 2 príncipes.

Lista dos 10 REIS de PAMPLONA/NAVARRA sepultados no Mosteiro de Leyre:


(os nomes dos ancestrais da minha família estão em letras maiúsculas.)


1 - Sancho Garcés (804-824) - filho de Fortuño Garcia, neto de GARCIA JIMENEZ.


2 - JIMENO IÑIGUEZ (824-836) - filho de IÑIGO GARCÍA, neto de GARCÍA JIMÉNEZ, primo do anterior.


3 - IÑIGO ARISTA (836-852) - 1º rei de Pamplona, neto do anterior.


4 - GARCÍA II IÑIGUEZ (860-882) - filho do anterior.


5 - FORTUÑO GARCÉS "el Monje" (882-905) - filho do anterior, foi raptado e passou anos no cativeiro em Córdoba.


6 - SANCHO GARCÉS I (905-926) - 1º rei da dinastia Jimena, expandiu o território para o sul.


7 - GARCIA SANCHEZ III (926-970) - filho do anterior, continuou a consolidação do reino.


8 - SANCHO GARCÍA II "Abarca" (970-994) - filho do anterior, conhecido pelos seus enfrentamentos com os mouros.


9 - Ramiro XIII (-991) - filho primogênito herdeiro do anterior, não chegou a reinar porque morreu antes do pai.


10 - GARCIA SANCHEZ IV "el Tremulo" (994-999) - irmão do anterior, sucedeu ao pai SANCHO GARCIA II.



Os 2 PRÍNCIPES sepultados no Mosteiro de Leyre são filhos de Jean d'Albret e Catarina de Foix, o casal de reis de Navarra mencionados no último artigo, sobre VIANA de NAVARRA. Reparem a coincidência... São eles os infantes Andrés Phebus de Navarra y Albret (n. Pamplona, 14 de outubro de 1501 - f. Sangüesa, 17 de abril de 1503) e Martin Phebus de Navarra y Albret (n. Sangüesa, setembro de 1507 - f. Sangüesa, dezembro de 1507). Eles pertenciam à Casa de Albret-Foix, que governou Navarra no período de crise que culminou com a conquista do reino pela Coroa de Castela.


As 7 RAINHAS sepultadas no Mosteiro de Leyre foram mencionadas só em número (não em nomes) no "Libro de la Regla" do século XIII e nas "Tablas de Leyre" do século XVII. Consegui identificar duas delas:


AURIA bint LUBB, a esposa moura do rei FORTUÑO GARCÉS "el Monje" (de fonte bastante confiável)

TERESA RAMÍREZ de LEÓN, segunda esposa do rei GARCIA SÁNCHEZ III (de fonte não muito conhecida)


É provável que as outras 5 rainhas não identificadas sejam esposas dos reis que estão sepultados na Arca. Foram identificadas 2 rainhas que foram minhas ancestrais. Outras 3 estão sepultadas em outros lugares. Outras 2 ninguém sabe onde estão sepultadas (perdeu-se o rastro delas). Restam 2 candidatas (sogra e nora) que não se enquadram nesses casos:


ONECA, esposa de IÑIGO ARISTA

URRACA JIMÉNEZ, esposa de GARCÍA II IÑIGUEZ


Talvez essas duas rainhas estejam entre as cinco que não foram identificadas no Mosteiro de Leyre.


Fica a dúvida...


_________________________

Carmen Souza Soares Reis

26 abril 2026




 
 
 

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