CATEDRAL de BARCELONA - Almodis de La Marche e o conde Ramón Berenguer "el Vell" de Barcelona
- Apr 27
- 8 min read
Updated: 4 days ago
A Catedral de Barcelona que abriga os túmulos do conde RAMÓN BERENGUER "el Vell" e da sua mulher, a condessa ALMODIS de LA MARCHE, não é a famosa catedral projetada por Gaudí. É a catedral antiga, sede da Arquidiocese de Barcelona. Como tudo em Barcelona é escrito em duas línguas oficiais, essa catedral tem dois nomes: Catedral de la Santa Cruz y Santa Eulàlia (castelhano) ou Seu de la Santa Creu i Santa Eulàlia (catalão). Trata-se de uma joia do estilo gótico catalão, construída entre os séculos XIII e XV no mesmo local onde antes existiram uma igreja românica e um templo visigótico. A Catedral fica no coração do Barrio Gótico de Barcelona, na simpática Praça da Sé, em frente ao Hotel Colón, onde me hospedei. Escolhi este local porque ali, todos os domingos, dançavam-se as "sardanas" - danças típicas catalãs que representam a identidade e a unidade do povo catalão. Estive em Barcelona na época dos protestos dos separatistas, quando eles dançavam as "sardanas" em silêncio, sem música. Um espetáculo de arrepiar!

Escolhi como assunto desse artigo a Catedral de Barcelona e os túmulos dos Condes de Barcelona que lá se encontram, para dar seguimento ao enigma mencionado no final do artigo sobre Dona Petronilla de Aragón:
O enigma do sepulcro de Dona Petronilla de Aragón poderá um dia ser solucionado por uma análise de DNA. Existe grande interesse das instituições aragonesas em localizar o túmulo dessa rainha e confirmar por meios científicos a sua identidade. O Governo de Aragón já solicitou uma amostra de DNA do túmulo da condessa ALMODIS de LA MARCHE (esposa do conde RAMÓN BERENGUER "el Vell") para confirmar que realmente se trata dessa condessa de Barcelona que viveu entre 1020 e 1071 e eliminar a possibilidade de que se trate da outra condessa de Barcelona que viveu entre 1136 e 1173 e foi rainha de Aragón.
ALMODIS de LA MARCHE viveu no século XI e Dona PETRONILLA de ARAGÓN viveu no século XII, mas ambas tiveram circunstâncias de vida que fogem bastante do padrão normal das outras pessoas, sejam elas nobres ou plebeias! E ambas foram casadas com Condes de Barcelona e ambas são minhas ancestrais...

ALMODIS de LA MARCHE foi uma mulher muito poderosa, que teve um papel de destaque no governo do condado de Barcelona. Teve uma vida bastante produtiva, foi companheira do marido, participou da vida dos filhos e não merecia o fim trágico que teve. Ela se casou três vezes, o que não era incomum na Idade Média, mas as circunstâncias inusitadas do seu destino seriam curiosas em qualquer época. Se fizessem um filme sobre a sua vida, garanto que seria visto com interesse. Sua história começa no sul da França e acaba em Barcelona.
ALMODIS de LA MARCHE (1020-1071) era filha do conde BERNARD I de LA MARCHE (991-1047) e AMÉLIE de RAZÉS, duas famílias importantes da região francesa da Occitaine. Aos 15 anos, Almodis casou-se com Hugh V de Lusignan, de 20 anos. Depois de terem três filhos (Hugh VI, Jordan e Melissende), o marido resolveu repudiá-la, alegando consanguinidade. Eu não encontrei nenhum parentesco entre as duas famílias, mas o Papa aceitou a argumentação do conde Hugh V de Lusignan e anulou o casamento deles. Almodis casou-se então com um viúvo sem filhos, do condado de Toulouse, que era um tradicional aliado do condado de La Marche: o conde PONS II de TOULOUSE (1020-1060) era filho do conde WILLIAM III "Taillefer" de TOULOUSE e de EMMA de PROVENCE. Com esse casamento, Almodis tornou-se Condessa de Toulouse e mãe de mais dois filhos e uma filha: WILLIAM IV de TOULOUSE (1040-1094), RAYMOND de SAINT-GILES de TOULOUSE (1046-1105), famoso cavaleiro medieval que participou da Primeira Cruzada e morreu no cerco de Tripoli, e ALMODIS de TOULOUSE. Esses três filhos ainda eram pequenos quando surgiu o personagem principal da vida da sua mãe.
O conde RAMÓN BERENGUER I "el Vell" de BARCELONA (1023-1076) era filho do conde BERENGUER RAMÓN I "el Corbat" de BARCELONA e de SANCHA SÁNCHEZ de CASTELA. Ele ainda não tinha 30 anos quando se apaixonou por Almodis. Não imagino como poderiam ter se conhecido, mas a Genealogia veio me socorrer! A primeira mulher de Ramón Berenguer era sobrinha de Almodis: Isabel de Béziers, filha do Visconde Pierre Raymond de Béziers e de Rangearde de La Marche, que falecera em 1050. RAMÓN BERENGUER I já estava casado com sua segunda mulher, Blanca de Navarra, quando resolveu sequestrar Almodis. Sim, é isso mesmo! Os registros históricos mostram que o conde RAMÓN BERENGUER I sequestrou ALMODIS de LA MARCHE em 1053. Almodis ainda estava casada com o conde PONS II de TOULOUSE quando Ramón Berenguer I a levou embora de Narbonne com o auxílio de uma frota enviada pelo Emir de Tortosa, seu aliado muçulmano. Alguns historiadores sugerem que o sequestro teria ocorrido com o consentimento dela, caso em que estaríamos falando de uma fuga planejada. Eu acho essa hipótese bem plausível, mas foi a palavra sequestro que passou para a história...
Os amantes casaram-se imediatamente e no ano seguinte ALMODIS de LA MARCHE deu à luz filhos gêmeos: RAMÓN BERENGUER II "el Cap d'Estopes" (1054-1082) e Berenguer Ramón II "el Fratricida" (1054-1097). Depois vieram Agnès (que se casou com o conde Guigues II de Albon) e Sancha (que se casou com o conde Guillermo Ramón I de Cerdanya). RAMÓN BERENGUER I começou o seu terceiro casamento, tendo apenas um filho: Pere Ramón de Barcelona (1050-1073), que entrará mais tarde na história de Almodis. Até 1056 estava tudo correndo bem, mas o casamento deles era ilegal, porque foi celebrado quando eles ainda estavam casados com outras pessoas (Ramón com Blanca de Navarra e Almodis com Pons de Toulouse). O Papa Victor II não hesitou em assinar a excomunhão do casal em 1056.
No mesmo ano, RAMÓN BERENGUER I presenteou ALMODIS de LA MARCHE com todas as cidades, vilas, aldeias e castelos que eram da sua avó, a condessa ERMESINDA de CARCASSONNE. Com isso, Almodis tornou-se uma das mulheres mais poderosas da Cataluña. A vida de ALMODIS de LA MARCHE em Barcelona teve um início escandaloso, mas ela tornou-se uma figura política poderosa e desempenhou um papel ativo nos assuntos diplomáticos e jurídicos do condado de Barcelona. Fato curioso pra sua época: ela sabia ler e escrever. Isso lhe permitiu colaborar com o marido em vários quesitos, inclusive na organização do sistema legal na Cataluña.

NOTA: Consegui uma tradução (original em latim) do documento de cessão de direitos sobre Carcassonne e Razès, datado de 6-1-1063, em que Guillém Ramón conde de Cerdanya diz ter recebido essas terras como dote de casamento com Adelaide, filha de Pierre Raymond (conde de Carcassonne e visconde de Béziers) e de Rangearde de La Marche (irmã de Almodis) e cede seus direitos sobre as mesmas em favor de Ramón Berenguer e Almodis de La Marche, pela soma de 4 mil marcos de Barcelona. Curiosidades: Adelaide era sobrinha de Almodis (filha de sua irmã) e cunhada de Ramón Berenguer (irmã da falecida Isabel de Béziers), e Guillém Ramón foi casado com Sancha de Barcelona (filha de Ramón Berenguer e Almodis).
ALMODIS de LA MARCHE viveu em Barcelona, mas sempre manteve contato com seus ex-maridos e com os filhos que viviam no sul da França. Ela voltou a Toulouse em 1065 para assistir ao casamento da sua filha ALMODIS de TOULOUSE com o conde PIERRE de MELGUEIL. Seus filhos sempre se apoiaram e estiveram juntos em eventos militares. Hugo VI de Lusignan, RAYMOND de SAINT-GILES, Berenguer Ramón e WILLIAM IV de TOULOUSE tornaram-se cruzados. Esse último morreu durante a Primeira Cruzada em 1094 e sua filha PHILIPPA de TOULOUSE casou-se com WILLIAM IX da AQUITANIA. Este casal passou a reivindicar a posse do condado de Toulouse, que havia passado para RAYMOND de SAINT-GILES (irmão de William IV), e quando Raymond morreu, a reivindicação foi transferida para os seus herdeiros. Durante muitos anos, os descendentes de WILLIAM IV de TOULOUSE, filho de ALMODIS de LA MARCHE, reivindicaram a posse do condado de Toulouse.
ALMODIS de LA MARCHE, condessa de Barcelona, teve uma morte trágica e inesperada. Ela foi assassinada por seu enteado Pere Ramón de Barcelona. Ele era o herdeiro do condado de Barcelona antes do casamento de seu pai com Almodis e sentiu-se usurpado pela madrasta e seus filhos. Temia a influência dela sobre o seu pai, receava que seus filhos o substituíssem como herdeiro e acabou por matar sua madrasta em 16 de outubro de 1071. RAMÓN BERENGUER I deserdou seu filho Pere Ramón e ele foi exilado de Barcelona. A morte da Condessa ALMODIS de LA MARCHE foi registrada no obituário do Mosteiro de San Cugat del Vallès em 17 de novembro de 1071.
RAMÓN BERENGUER I "el Vell" morreu em 1076. O condado de Barcelona foi herdado pelos filhos gêmeos que teve com Almodis: RAMÓN BERENGUER II e Berenguer Ramón "el Fratricida". Os irmãos nunca estavam de acordo e contra o desejo do pai, acabaram por dividir o condado. Em 5 de dezembro de 1082, RAMÓN BERENGUER II foi assassinado por ordem do irmão, que passou a ser chamado "el Fratricida". Berenguer Ramón morreu em 20 de junho de 1097 em Jerusalém, não se sabe bem se num grupo de peregrinos ou num grupo de guerreiros cruzados.
A história de uma família nunca termina, mas aqui se encerra esse capítulo que resolvi contar a vocês. Não custa lembrar que o meu objetivo ao divulgar esses fatos é prestar homenagem aos meus ancestrais que viveram essa história. Como sempre, os nomes deles estão em letras maiúsculas.
Conclusão: ALMODIS de LA MARCHE foi casada com importantes figuras históricas e tornou-se matriarca de uma dinastia que governou o sul da França e o norte da Espanha no auge da Cultura Occitana, famosa pelos seus trovadores, sua literatura e sua música. Ela foi trisavó da legendária rainha da Inglaterra ELEANOR da AQUITANIA, que era neta de PHILIPPA de TOULOUSE e WILLIAM IX da AQUITANIA e bisneta de WILLIAM IV de TOULOUSE.
Só para completar a resenha dos nobres que estão sepultados nessa catedral, devo dizer que o mesmo problema de extravio após a exumação e perda da nova localização, que aconteceu com os restos de Dona PETRONILLA de ARAGÓN, condessa de BARCELONA (assunto do artigo anterior, que leva seu nome), pode ter acontecido com os restos de outro nobre catalão, RAMÓN BORRELL I, conde de BARCELONA, que devem ainda estar em algum lugar da Catedral de Santa Eulália.

Há outros personagens da nobreza catalã sepultados nessa catedral, em dois sepulcros de pedra muito bonitos, decorados com esculturas de Frederic Marès. Foram instalados entre o transcepto e a capela dos Santos Inocentes. Contêm restos de reis e rainhas que foram trasladados do Convento de Sant Francesc, que estiveram numa das capelas do claustro da Catedral de Santa Eulália e hoje repousam nessas duas urnas funerárias.
Numa urna, estão um rei e dois infantes:
Alfonso III "el Liberal", rei de Aragón e conde de Barcelona
Jaime de Aragón, conde de Urgel, e Federico de Aragón, filhos de Alfonso "el Benigno", rei de Aragón.
Na outra urna, estão quatro rainhas:
Constanza de Sicilia, mulher de Pedro "el Grande", rei de Aragón
Maria de Chipre, mulher de Jaime "el Justo", rei de Aragón
Sibila de Fortiá, 4ª mulher de Pedro "el Cerimonioso", rei de Aragón
Leonor de Aragón y Foix, filha de Pedro IV de Ribagorza, 2ª mulher de Pedro I, rei de Chipre e Jerusalém.
Obrigado por terem lido esse artigo.
Até o próximo!
_____________________________
Carmen Souza Soares Reis
30 abril 2026






















Comments