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BURGOS - Panteón Condal da COLEGIATA de COVARRUBIAS

  • Mar 31
  • 7 min read

Updated: Jul 12

Continua a peregrinação pelo Caminho das Estrelas! Ainda estamos em Burgos e vamos à localidade de Covarrubias para visitar a Igreja Paroquial de San Cosme e San Damian. No passado essa igreja recebeu o título de Colegiata e ainda é chamada de Colegiata de Covarrubias. Foi declarada Monumento Histórico-Artístico do Tesouro Artístico Nacional por decreto de 3 de junho de 1931. Tem interesse especial para mim. Observem as letras maiúsculas...


Colegiata de San Cosme y San Damian - Covarrubias, Burgos
Colegiata de San Cosme y San Damian - Covarrubias, Burgos

Nessa igreja está o túmulo de uma importante figura do antigo Reino de Castela: FERNÁN GONZÁLEZ, Conde de CASTELA (913-970), filho de GONZALO FERNÁNDEZ, Conde de ARLANZA e de LARA, e de sua mulher MUNIADONA. Ele nasceu em 913 no Castelo de Picón de Lara, que tinha sido construído pelo seu pai, e casou-se em 932 com SANCHA de PAMPLONA (900-959), filha do Rei SANCHO GARCÉS I de PAMPLONA. Eu descendo de 3 filhos desse casal: URRACA FERNÁNDEZ Rainha de LEÓN (930-1007), GARCÍA  FERNÁNDEZ Conde de CASTELA (938-995), MUNIADONA FERNÁNDEZ de CASTELA. Descendo também do único filho do segundo casamento do pai: PEDRO FERNÁNDEZ Conde de CASTELA (965-1007).


FERNÁN GONZÁLEZ, Conde de Castela - Arco de Santa María, em Burgos
FERNÁN GONZÁLEZ, Conde de Castela - Arco de Santa María, em Burgos

Os túmulos desses meus ancestrais estão no Presbitério da Igreja. Seus restos foram trasladados do Mosteiro de San Pedro de Arlanza para Covarrubias em 1841. O túmulo do Conde FERNÁN GONZÁLEZ é um sepulcro do século V que foi encontrado no século XVII, abandonado numa aldeia do Alfoz de Lara, sem a tampa! Alfoz de Lara era um importante distrito medieval na região de fronteira, na época da Reconquista, e foi o berço do Condado de Castela. Fica perto de Lara de los Infantes e é conhecido pelo Castelo de Picón de Lara, uma fortaleza fundada por GONZALO FERNÁNDEZ, Conde de Arlanza, onde nasceu seu filho FERNÁN GONZÁLEZ, futuro Conde de Castela.


Sepulcro do século V onde jaz FERNÁN GONZÁLEZ, Conde de Castela
Sepulcro do século V onde jaz FERNÁN GONZÁLEZ, Conde de Castela

Sepulcro hispano-romano do século IV onde jaz SANCHA de PAMPLONA, Condessa de Castela
Sepulcro hispano-romano do século IV onde jaz SANCHA de PAMPLONA, Condessa de Castela

No Presbitério da igreja repousam outras figuras da nobreza medieval castelhana: URRACA FERNÁNDEZ, Rainha de LEÓN (930-1007), filha mais velha do Conde FERNÁN GONZÁLEZ, e URRACA GARCÍA de PAMPLONA (940-994), filha do Rei GARCÍA SÁNCHEZ III de PAMPLONA e segunda mulher do Conde FERNÁN GONZÁLEZ. Fiquei intrigada ao ler a placa de identificação de um sepulcro de pedra que se encontra ao lado dos sepulcros dessas duas nobres senhoras. Supõe-se que contenham os restos da Infanta Sancha Raimúndez, mas o nome dessa senhora está entre os sepultados no Pantéon dos Reis de León, na Basílica de San Isidoro! Dizem que o seu corpo está incorrupto, por isso eu memorizei o nome dela... Foi a Infanta Sancha Raimúndez quem concedeu foros à localidade de Covarrubias, em 1148, portanto, eu acredito que ela esteja aqui. Sobre a tampa do seu sepulcro há uma escultura da cruz abacial e o escudo esquartelado de Castela e León, que foi concedido à Infanta Sancha pelo seu irmão, o Rei ALFONSO VII "el Emperador" de CASTILLA y LEÓN (que está sepultado na Abadia de Las Huelgas e foi mencionado no post "Panteón Real da ABADIA de LAS HUELGAS em BURGOS").


COLEGIATA de COVARRUBIAS


A região de Covarrubias esteve sob ocupação islâmica e só se desenvolveu depois de reconquistada. FERNÁN GONZÁLEZ teve um papel importante na sua recuperação, pois tinha residência em Covarrubias e organizou aquele território enquanto foi Conde de Castilla, de 931 a 970. A primeira notícia documentada da existência do Mosteiro de San Cosme e San Damián é uma doação datada de 950. O Mosteiro passou para as mãos dos Condes de Castela em 972, quando GARCÍA FERNÁNDEZ (filho de FERNÁN GONZÁLEZ) conseguiu fazer uma permuta com o Mosteiro de San Pedro de Valeránica, em Tordomar. Naquela época, era um mosteiro misto de monges e monjas (situação herdada dos visigodos): numa doação de 974, aparecem as assinaturas da abadessa Justa e do abade Lucio, representando a instituição.


O conde GARCÍA FERNÁNDEZ e sua esposa AVA de RIBAGORZA reuniram um grande patrimônio, com propriedades que se estendiam por muitos territórios. Instituíram o Infantado de Covarrubias e puseram à frente dessa instituição sua filha Urraca de Castela e Ribagorza, que se tornou religiosa beneditina. Fizeram também muitas doações ao Mosteiro de San Pedro de Cardeña, onde estabeleceram o seu Panteón. Isso foi mencionado porque a gestão do patrimônio do Infantado de Covarrubias estava localizada no Mosteiro de San Cosme e San Damian. Dali é que se exercia o poder, tanto religioso como civil, sobre o extenso território que lhe pertencia. Os abades de Covarrubias colaboravam no exercício do governo. Quando Urraca morreu, a direção do Infantado passou para Urraca de Castela (filha de FERNANDO I de CASTELA e LEÓN) que faleceu em 1103 e depois para Sancha de Castela, irmã de ALFONSO VII "el Emperador". Quando ele morreu em 1157, o Infantado passou para a diocese de Toledo e Covarrubias deixou de ser um mosteiro misto. No século XII já estava secularizado e converteu-se em Colegiata. No tempo de FERNANDO III de CASTELA e LEÓN, Covarrubias recuperou sua independência de Toledo e a gestão do Infantado, situação que durou até 1851. Apesar da Abadia pertencer à diocese de Burgos, dependia diretamente da Santa Sé e os abades tinham condições preferenciais de participação nos sínodos diocesanos.


A Colegiata de Covarrubias é um importante monumento arquitetônico, com destaque para a Igreja gótica do século XV. Seu Claustro também tem valor arquitetônico, seu Museu contém peças de notável valor artístico e o antigo Arquivo da Colegiata ainda existe. Mas é o seu valioso Panteón dos Condes que atrai visitantes. Ali estão os sepulcros de FERNÁN GONZÁLEZ Conde de CASTELA (913-970), de sua mulher SANCHA de PAMPLONA (900-959), de sua filha URRACA FERNÁNDEZ Rainha de LEÓN (930-1007), de sua segunda mulher URRACA GARCÍA de PAMPLONA (940-994) e da Princesa Cristina da Noruega (1234-1262), esposa do Infante Felipe de Castela e nora de FERNANDO III de CASTELA e LEÓN.


Túmulo da Princesa Cristina de Noruega (1234-1262), mulher do Infante Felipe de Castela e nora do Rei Fernando III de Castela e León
Túmulo da Princesa Cristina de Noruega (1234-1262), mulher do Infante Felipe de Castela e nora do Rei Fernando III de Castela e León

MOSTEIRO DE SAN PEDRO DE ARLANZA


O Mosteiro de Arlanza, onde estiveram sepultados FERNÁN GONZÁLEZ e sua mulher SANCHA de PAMPLONA, tem uma origem interessante, cheia de lendas que se perpetuaram. O historiador beneditino Antonio de Yepes diz na sua Crónica General de la Orden de San Benito (1609-1610) que a abadia foi fundada pelo rei visigodo Recaredo I e que serviu de refúgio para o rei Wamba, que era monge professo no Mosteiro de Pampliega em Burgos e veio para San Pedro de Arlanza em busca de isolamento. Ele morreu em 688 e foi enterrado ali. Outra lenda: dizem que o primitivo mosteiro foi perdido com a invasão islâmica, mas um pequeno grupo de religiosos eremitas sobreviveu. Dizem que o Conde de Castela FERNÁN GONZÁLEZ estava caçando, foi perseguir um javali que tinha se escondido numa caverna, e ali encontrou uma capela com 3 eremitas: Pelayo, Arsenio e Silvano. O conde passou a noite com esses religiosos e eles pressagiaram sua vitória militar contra os infiéis. FERNÁN GONZÁLEZ teria fundado o Mosteiro de San Pedro de Arlanza em agradecimento a esses eremitas.


Lendas à parte, parece que o Mosteiro de San Pedro de Arlanza foi fundado em fins do século IX ou início do século X, quando alguns eremitas se estabeleceram no entorno da Ermida de San Pelayo (ou de San Pedro Velho) de Arlanza, o que o vincularia com a tradição lendária do eremita Pelayo e da caça ao javali que figura no Poema de Fernán González, que foi provavelmente escrito por um monge desse mosteiro. Seus fundadores teriam sido os Senhores de Lara, GONZALO FERNÁNDEZ e sua mulher MUNIADONA, ou seu filho FERNÁN GONZÁLEZ. Nesse contexto, foi elaborado o documento da fundação desse mosteiro, datado de 912.

FERNÁN GONZÁLEZ en San Pedro de Arlanza - Ilustración de la portada del libro "Estoria del noble cavallero el conde Fernan Gonzalez" (1511) - Biblioteca Nacional de España
FERNÁN GONZÁLEZ en San Pedro de Arlanza - Ilustración de la portada del libro "Estoria del noble cavallero el conde Fernan Gonzalez" (1511) - Biblioteca Nacional de España

Com a morte do conde, seus sucessores continuaram a patrocinar o mosteiro, cuja história segue a complicada história da Espanha. Em 1518 foi incorporado à congregação de San Benito de Valladolid e perdeu a sua relativa independência. Nessa época foram reformados os edifícios do mosteiro, perderam-se a aparência medieval e as dependências mais antigas. Durante a guerra da Independência, por causa da "desamortização" de 1835, o mosteiro fechou. Uma vez abandonado, foi vítima de saques e de um incêndio em 1894. Então começou o traslado de peças de valor para outros lugares. Um portal românico foi para o Museu Arqueológico Nacional de Madrid. Para a catedral de Burgos, foi o sepulcro chamado de Mudarra, do século XIII. Para a Colegiata de Covarrubias, foi o sepulcro de Fernán González. Para o Museu de Burgos foi, em depósito, a Virgen de las Batallas, uma obra de Limoges da primeira metade do século XIII (recuperada em 1999, depois de passar por coleções particulares). Valiosas pinturas murais foram vendidas a partir de 1930 e encontram-se distribuídas por vários museus: Museu Nacional de Arte de Cataluña, Metropolitan Museum of New York e Fogg Art Museum.


El Monasterio de San Pedro de Arlanza - La Ilustración Española y Americana - Biblioteca Nacional de España
El Monasterio de San Pedro de Arlanza - La Ilustración Española y Americana - Biblioteca Nacional de España

Infelizmente o Mosteiro de San Pedro de Arlanza já não existe, mas é gratificante saber que muitas peças de valor do seu acervo foram salvas, inclusive o túmulo do meu ancestral, que foi encontrado sem tampa perto do castelo da família, no Alfoz de Lara. Como será que foi parar ali? Interessante esse hábito dos nobres medievais, que perdurou entre os abastados fiéis dos séculos seguintes, de doarem peças valiosas ou financiarem caríssimas obras de arte e arquitetura, para o engrandecimento das igrejas e mosteiros a que estão afiliados. Não posso deixar de pensar que o fazem na esperança de obter indulgência para os seus pecados e de salvar suas almas...


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Carmen Souza Soares Reis

31 março 2026














 
 
 

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