Dona Petronilla de ARAGÓN e o Conde Ramón Berenguer IV de BARCELONA
- Apr 27
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Dona PETRONILLA de ARAGÓN foi a única filha do rei RAMIRO II “el Monje” (1080-1147). Ela nasceu em Huesca em 1136 e aos 14 anos casou-se com o conde RAMÓN BERENGUER IV de BARCELONA (1113-1162). Nada de extraordinário até aqui. No entanto, tanto o seu nascimento como o seu casamento foram eventos completamente inusitados no século XII e ainda causam espanto no século XXI. Essa é a história que vou contar.

RAMIRO II de ARAGÓN foi proclamado rei pelos nobres aragoneses em 1134, em seguida à morte do seu irmão Alfonso I "el Batallador", que não deixou herdeiros. Ramiro era monge e teve que renunciar à sua condição monástica para casar-se e gerar um descendente para herdar o seu trono. Ele já tinha mais de 50 anos naquela altura.
A noiva escolhida foi a princesa AGNÈS de POITOU (também conhecida como Agnès da Aquitânia), filha do duque GUILHERME IX “o Trovador” da AQUITÂNIA, e de sua mulher FELIPA de TOULOUSE. Agnès era viúva de mais de 30 anos, com quatro filhos. Foi escolhida por ser uma mulher comprovadamente fecunda e ligada à casa real aragonesa por sua tia paterna (outra Agnès da Aquitânia), que tinha sido rainha consorte de Aragón, como mulher do rei Pedro I, irmão mais velho de Ramiro II. O casamento realizou-se na catedral de Jaca (primeira capital do reino de Aragón) no outono de 1135. Em 29 de junho de 1136, na mesma cidade, nasceu a menina PETRONILLA, assim chamada por ter nascido no dia de São Pedro.
Seria mais fácil se RAMIRO II tivesse tido um varão, mas ele foi surpreendido com uma menina e teve que planejar rapidamente o futuro casamento da filha. Pela primeira vez a sucessão aragonesa caía em mãos femininas. Não havia lei a esse respeito, mas o testamento do primeiro rei de Aragón dizia: “Sómente no caso em que se esgote a estirpe (era o que tinha acontecido), é aceitável transmitir o poder real para uma mulher, mas sem que ela o exerça, e sim que o passe para o marido que lhe escolherem”... Essa era a única diretriz existente, portanto era preciso procurar um marido para a recém-nascida!
Pouco depois do nascimento de PETRONILLA, seu pai teve um encontro com o rei ALFONSO VII de CASTELA e LEÓN, que o convenceu a render-lhe vassalagem pelo Reino de Saragoza. Em troca, ele restituiu-lhe a cidade de Saragoza e a parte oriental do Reino, e reservou para si a parte ocidental da fronteira com Castela (Calatayud, Alagón e Soria). Na mesma ocasião, sugeriu resolver o futuro da recém-nascida através de casamento com seu filho mais velho, o futuro rei SANCHO III de CASTELA. Ele quis educar a menina na corte castelhana, como futura noiva do herdeiro da coroa de Castela e León. Para garantir o pacto, ALFONSO VII levou a pequena PETRONILLA para Castela e rebatizou-a como Urraca, nome da sua mãe. A história se torna cada vez mais inacreditável!
Em vista desses acontecimentos, AGNÈS de POITOU deve ter retornado para sua terra, pois o seu nome não aparece mais na documentação aragonesa. RAMIRO II pode ter se separado dela, para deixar claro que tinha se casado apenas para “la restauración de la sangre y de la estirpe” (suas próprias palavras). AGNÈS de POITOU cumpriu o seu papel, produziu a desejada herdeira para assegurar a continuidade da linhagem da Casa de Aragón e a sua função estava terminada. De volta à Aquitânia, ela ingressou na Abadia de Fontévrault, onde passou o resto de seus dias. Faleceu em 1159, como abadessa de Fontévrault. Mais uma novidade: a nossa protagonista, que era filha de um monge, tornou-se filha de uma freira!
Pouco tempo depois do acordo entre RAMIRO II e o rei ALFONSO VII, uma parte da nobreza aragonesa convenceu o seu rei a repensar aquele acordo e a considerar o conde de Barcelona RAMÓN BERENGUER IV como candidato a genro. RAMIRO II convenceu-se de que esta era a melhor opção e assinou um Acordo de Doação em 11 de agosto de 1137 na cidade de Barabastro, em que “doava sua filha como mulher, com todo o reino aragonês, a Ramón Berenguer” e ordenava aos homens de seu reino que “lhe prestassem fidelidade por toda sua vida, por homenagem e juramento, salvaguardando sua fidelidade a mim e à minha filha”. RAMIRO II incluiu também: “se a minha filha morrer e tu sobreviveres, receberás a doação do reino aragonês, sem nenhum impedimento, depois da minha morte”. E terminou dizendo: “que eu, Ramiro, seja rei, senhor e pai no reino aragonês e em todos os teus condados, enquanto me aprouver”. O acordo foi ratificado duas semanas depois, em 27 de agosto de 1137.
Ansioso por voltar à vida monástica, RAMIRO II ratificou sua transferência de poderes em 13 de novembro de 1137, num manuscrito conhecido como "La Renuncia de Saragoza" e considerado como o mais antigo documento de abdicação de um soberano do Ocidente. Ele reafirma a “doação da sua filha com todo o reino de Aragón a Ramón Berenguer” e declara que “por livre vontade, a partir daquele momento todos os seus vassalos, tanto os nobres como o clero e o povo, tinham que obedecer a ele como a seu rei”. Para que não houvesse dúvida, doou-lhe tudo que se havia reservado no documento de Barbastro: “isso e mais o que lhe havia doado antes, o terá Ramón Berenguer enquanto a meu serviço e fiel a mim.” Espanto-me que o nome da filha não tenha sido mencionado...
Depois da abdicação, RAMIRO II retirou-se para o Mosteiro de San Pedro el Viejo, em Huesca, conservou seu título de rei e ali viveu mais dez anos sem intervir no curso dos acontecimentos. Por seu lado, RAMÓN BERENGUER IV passou a incluir em seus documentos o título de “Conde de Barcelona reinante en Aragón” ou “Príncipe de Aragón”, mas nunca se entitulou rei. Não se afastou nem um milímetro do que tinha sido acordado.
Em fevereiro de 1140, RAMÓN BERENGUER IV encontrou-se com ALFONSO VII em Carrión de los Condes e prestou-lhe vassalagem por Saragoza, ratificando o que RAMIRO II tinha feito quatro anos antes. Assinaram o Tratado de Carrión, pelo qual concordavam em repartir o reino de Pamplona (o que nunca chegou a realizar-se). Não se sabe se trataram do destino de PETRONILLA, que estava com 5 anos de idade e continuava em Castela. Talvez RAMÓN BERENGUER tivesse consentido na permanência da sua noiva-menina naquela corte, porque a rainha consorte de Castela era sua irmã BERENGUELA de BARCELONA (que foi mencionada no artigo sobre a Catedral de Santiago de Compostela). Fico me perguntando se essa rainha, que era celebrada por sua inteligência e cultura, teria tido algum papel na negociação que tornou seu irmão regente do Reino de Aragón. Seu filho Sancho não precisava dessa posição, pois era herdeiro da coroa de Castela, mas o seu irmão era apenas um conde...
O casamento de PETRONILLA e RAMÓN BERENGUER IV teve lugar em Lérida no outono de 1150. A noiva tinha completado 14 anos, a idade canônica para contrair matrimônio, e o noivo estava com 37 anos. O casamento tinha sido planejado desde o nascimento da noiva, mas sua realização não foi tão simples como parece...

No ano anterior, em 1º de julho de 1149, os representantes de RAMÓN BERENGUER em Pamplona fizeram um acordo secreto com o rei de GARCIA IV de NAVARRA, para casar a sua filha Dona BLANCA com o conde de Barcelona no ano seguinte, antes do dia 29 de setembro de 1150. Faltam detalhes nessa complicada história e fica difícil imaginar o que as duas partes pretendiam com esse acordo... Talvez RAMÓN BERENGUER tenha aceitado esse estratagema, na esperança de que a notícia do seu próximo casamento com a filha do rei GARCIA IV forçasse ALFONSO VII a devolver-lhe a princesa PETRONILLA. Quanto ao rei de Navarra, talvez GARCIA IV tenha usado sua filha como moeda de troca, na tentativa de impedir a união do conde de Barcelona com a princesa de Aragón. O fato é que ambos conseguiram chamar a atenção do rei ALFONSO VII e ele finalmente devolveu a princesa PETRONILLA (chamada Urraca, em Castela) ao seu prometido noivo, em data desconhecida (entre o segundo semestre de 1149 e o primeiro semestre de 1150). E mais tarde, no dia 30 de janeiro de 1151, casou seu filho SANCHO III, herdeiro da coroa de CASTELA, com a princesa BLANCA de NAVARRA.
Em abril de 1152, PETRONILLA estava grávida pela primeira vez e talvez receasse não sobreviver ao parto, pois fez um testamento para dissipar qualquer dúvida que pairasse sobre a “doação” feita por RAMIRO II em 1137. O testamento dizia que se ela morresse antes de RAMÓN BERENGUER, ele herdaria o reino de Aragón. E previa todas as possibilidades: se ela desse a luz a um varão, deixava para ele o reino de Aragón, mas ele só herdaria depois que seu marido morresse; se o menino morresse sem sucessão direta, o reino passaria para RAMÓN BERENGUER. Felizmente não houve necessidade dessas provisões testamentárias porque em 1157 PETRONILLA deu à luz a um menino e teve outros varões nos anos seguintes.

PETRONILLA de ARAGÓN e RAMÓN BERENGUER tiveram 5 filhos (ela esteve grávida durante a maior parte da sua vida conjugal). A criança que ela esperava em 1152 não sobreviveu. Depois, em 1157 teve RAMÓN (rei ALFONSO II “el Casto”); em 1158 teve Pere (conde Ramón Berenguer V de Provence), em 1160 teve DULCIA de BARCELONA, Infanta de ARAGÓN (rainha consorte de Portugal); e em 1161 teve Sancho (conde de Cerdanya e de Provence).
Da existência dessa família existe ainda um vestígio material: o Castell de Vilamajor, que fica na comarca de Vallès Oriental, ao norte de Barcelona, onde viveram a maior parte da sua vida. Hoje só resta uma torre, chamada Torre Roja, que ainda funciona como campanário da igreja de Sant Pere de Vilamajor.

Depois de casada, PETRONILLA acompanhou o marido em algumas incursões por terras aragonesas, como rainha de Aragón e condessa de Barcelona. Só existia um documento assinado por ela e pelo marido, datado de 1157: uma doação à Ordem dos Hospitalários. No fim do documento, junto à assinatura de RAMÓN BERENGUER, aparece: Signum + Peronelle, aragonensium regine et comitisse barchinonensis. Sempre se acreditou que RAMÓN BEREBGUER houvesse sempre governado sem intervenção alguma de Dona PETRONILLA, apesar de só usar o título de “Príncipe de Aragón”. Mas recentemente foram encontrados outros documentos assinados por ela. Um deles, assinado como Condessa de Barcelona, fazendo uma doação à catedral de Santa María de Tortosa, e mais seis documentos, em que a sua firma (signum) aparece depois da firma de RAMÓN BERENGUER. Quatro desses documentos referem-se a doações no reino de Aragón: em dois deles utilizaram a terceira pessoa (“Signum de su esposa, reina de Aragón» e «Signum de la señora reina de Aragón y Condesa de Barcelona”), o que indica que provavelmente ela serviu de testemunha, mas nos outros dois utilizaram a primeira pessoa (“Signum Petronila, reina de Aragón, que lo aprueba y confirma” e “Signum Petronila, reina de Aragón y Condesa de Barcelona, que lo concede, aprueba y confirma”), o que indica que a sua assinatura era fundamental naqueles documentos. Essas novas descobertas demonstram que Dona PETRONILLA exerceu um papel político no reino de Aragón e no condado de Barcelona.

RAMÓN BERENGUER faleceu em 6 de agosto de 1162 no Borgo San Dalmazio (Piemonte, Itália). Apesar da sua morte ter sido súbita, ele ainda conseguiu comunicar as suas últimas vontades verbalmente. Foram testemunhas o senescal Guillem Ramón de Montcada, o nobre Albert de Castellvell e o capelão do conde, mestre Guillem. Ao seu primogénito RAMÓN (futuro rei ALFONSO II “el Casto”) legou o condado de Barcelona e o reino de Aragón, enquanto que o segundo filho, Pere (futuro Ramón Berenguer III de Provence), ficou com o condado de Cerdanya e os direitos sobre os viscondados de Narbonne e de Carcassonne, sendo vassalo do primogênito. Ao terceiro filho, Sancho, coube o papel de possível herdeiro dos outros dois irmãos, caso morressem sem descendência. À sua esposa PETRONILLA, deixou o condado de Besalú e o castelo de Ribes, como residência. Finalmente, como todos seus filhos eram menores de idade, deixou-os sob a tutela do seu grande amigo, o rei HENRY II da Inglaterra (“Dimisit omnem suum honorem ac filios in bajulia, tuicione, defensione domini Enrici, Regis Angliae” diz o testamento.) Seu corpo foi trasladado de Piemonte até a província de Girona, para ser sepultado na Igreja de Santa Maria de Ripoll, onde já estava sepultado o seu pai. Mas a história de RAMÓN BERENGUER não termina com o seu enterro e merece ser contada em separado, já que ele recebeu o cognome “el Sant”. Quem sabe num próximo artigo...
A curiosa história de Dona PETRONILLA, casada aos 14 anos e viúva aos 26, também não termina com a morte de RAMÓN BERENGUER. Em outubro de 1162 reuniram uma assembleia em Huesca para dar conhecimento público do testamento sacramental de RAMÓN BEREGUER. A ata dessa assembleia mostra um total de 43 firmas (signa) e entre elas a de Dona PETRONILLA. Ela é quem torna válido aquele documento, com a sua confirmação: “Signum Petronila, reina de Aragón y Condesa de Barcelona, mujer del dicho conde, que apruebo y confirmo y corroboro con mi propia mano”. Isto prova que ela teve um papel crucial na aprovação do testamento do marido e na sucessão do filho ao trono de Aragón.
RAMÓN BERENGUER não havia especificado quem deveria governar durante a menoridade do seu primogênito Ramón, que tinha 5 anos de idade quando ele morreu. Durante os dois primeiros anos, o governo do reino e dos condados ficou a cargo do conde Ramón Berenguer III de Provence, sobrinho de RAMÓN BERENGUER. Mas parece que o conde de Provence foi obrigado a voltar ao seu condado, após um violento confronto com um barão que era vasalo de outro conde importante. A tutoria efetiva do Infante ALFONSO ficou então, nas mãos da Curia e de dois personagens eminentes (Guillem Ramón de Montcada e Guillem Torroja) cujos nomes aparecem em vários documentos até as datas em que morreram: 1173 e 1175.
Em fevereiro de 1163 aparece um documento com o signum de Dona PETRONILLA como testemunha, o que pode indicar que ela já estivesse envolvida na regência de Alfonso, como afirmam alguns autores.
Em 18 de junho de 1164, dois anos depois da morte de RAMÓN BERENGUER, houve uma assembleia em Barcelona, na qual PETRONILLA fez a doação formal a seu filho primogênito, já com o nome de ALFONSO (o nome Ramón passaria para seu irmão Pere). Ela passou para ele tudo o que lhe havia sido outorgado pelo testamento do marido. Esse ato não seria necessário sob o ponto de vista legal, já que seu marido havia deixado o reino diretamente para o filho. Mas fica evidente que os aragoneses aproveitaram para esclarecer o fato de que PETRONILLA foi a soberana de Aragón desde a volta de RAMIRO II para a vida monástica, e por isso deveria ser ela, e não o seu marido, quem deveria passar o reino para o filho. Alguns autores consideram que se trata de mera formalidade, mas sublinham o fato de que ela fez doação do reino de Aragón a seu filho, incluindo a frase “sem que eu retenha nenhuma voz nem nenhum outro poder”, dando a entender que até aquele momento era ela a rainha e dona de Aragón, e que ela tinha voz e poder!

Depois da abdicação, Dona PETRONILLA continuou a reinar como regente, durante a menoridade do seu filho. Em 13 de outubro de 1173, ela fez seu testamento e mais uma vez confirmou a doação do reino de Aragón a seu filho Alfonso. Morreu poucos dias depois, aos 37 anos de idade, e foi enterrada na antiga Catedral de Barcelona, segundo a sua vontade. A localização exata dos seus restos é um enigma histórico. Acredita-se que o seu túmulo possa estar mal identificado, mas certamente estará dentro da Catedral de Santa Cruz e Santa Eulália no Barrio Gótico de Barcelona. Os restos de Dona PETRONILLA a certa altura foram trazidos para a antiga catedral e hoje ninguém sabe onde estão. Acredita-se que durante as obras levadas a cabo no século XV tenham sido trasladados para um novo sepulcro, sem que se fizesse (ou tendo-se perdido) o registro da localização desse novo túmulo. Um verdadeiro absurdo! Fico com muita pena de não poder visitar seu túmulo! Mas não me surpreendo, porque todos os eventos da vida dessa rainha foram inusitados...
O enigma do sepulcro de Dona PETRONILLA de ARAGÓN poderia talvez ser solucionado através de uma análise de DNA. Existe grande interesse das instituições aragonesas em localizar o túmulo dessa rainha e confirmar por meios científicos a sua identidade. O Governo de Aragón já solicitou uma amostra de DNA do túmulo da condessa ALMODIS de LA MARCHE (esposa do conde RAMÓN BERENGUER "el Vell") para confirmar que realmente se trata dessa condessa de Barcelona que viveu entre 1020 e 1071 e eliminar a possibilidade de que se trate da condessa Dona PETRONILLA, que foi rainha de Aragón e viveu entre 1136 e 1173.
A condessa ALMODIS de LA MARCHE também é minha ancestral e teve uma vida extraordinária! Será objeto do próximo artigo nesse blog. Aguardem.
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Carmen Souza Soares Reis
21 Abril 2026






















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