Panteón Real da CARTUJA de MIRAFLORES em Burgos
- Mar 30
- 4 min read
Updated: Mar 30
Depois da emocionante visita à Abadia de Las Huelgas, continuei a minha peregrinação, em busca dos túmulos de outros ancestrais reais. Lembro aos leitores que o sentido da minha peregrinação pelo Caminho das Estrelas me foi revelado numa visita rápida ao Panteón dos Reis da Galícia na Catedral de Santiago de Compostela. Na primeira parada do meu Caminho eu já consegui vislumbrar um objetivo para a minha peregrinação: encontrar os restos dos meus ancestrais que deixaram seu nome gravado na história dos antigos reinos da Espanha.
Em Burgos, ainda havia outros lugares onde foram sepultadas figuras históricas do antigo Reino de Castela. Este post poderia ter sido um adendo ao post anterior, mas a Abadia de Las Huelgas é um lugar único e diferenciado, construído por um monarca que teve a intenção de ali inaugurar um mosteiro de monjas beneditinas, com uma capela onde pretendia que repousassem os sepulcros de todos os membros de sua família. A Cartuja de Miraflores tem uma origem semelhante.
PANTEÓN REAL da CARTUJA de MIRAFLORES
A Cartuja de Nuestra Señora Miraflores é um mosteiro cartusiano do século XV. Visitar Miraflores é mergulhar na arte sacra espanhola do final da Idade Média, num ambiente tranquilo e sereno, pois ali vivem monges cartusianos em clausura e silêncio. A atração desse mosteiro são as sepulturas dos pais da Rainha Isabel de Castela, a Católica: o Rei Juan II de Castela (1405-1454) e Isabel de Portugal, Rainha Consorte de Castela (1428-1496).
O Panteón Real da Cartuja de Miraflores teve origem numa encomenda da Rainha Isabel, a Católica, ao escultor Gil de Siloé por volta do ano 1490. Ela queria criar sepulturas dignas para os seus pais, como soberanos de Castela, e seu irmão Alfonso, reafirmando seu direito sucessório e a glória da sua linhagem. O artista desencumbiu-se maravilhosamente da tarefa que lhe foi confiada. A Rainha Isabel (1451-1504) e seu marido o Rei Fernando de Aragón (1452-1516) foram sepultados em Granada, a cidade que conquistaram aos Mouros numa guerra de 1482 até 1492. Com a vitória do exército cristão, o emirado de Granada foi anexado à Coroa de Castela e a Reconquista da Espanha teve um final feliz, depois de séculos de luta. O movimento da Reconquista começou em 718 nas montanhas das Astúrias, como foi mencionado no post "Don Pelayo - Santuário de Covadonga", cuja leitura recomendo.
O mosteiro cartusiano de Miraflores era originalmente um palácio de caça do rei Enrique III (1379-1406) que passou para seu filho João II e foi doado por ele aos monges cartusianos em 1441. A igreja abriga os belíssimos túmulos de alabastro dos reis João II de Castela e Isabel de Portugal, além do impressionante túmulo do seu filho Alfonso, Príncipe das Astúrias (1453-1468). A igreja destaca-se também pelo seu magnífico retábulo dourado e policromado, esculpido por Gil de Siloé, que é considerado uma das maiores obras de arte gótica. Diversas outras obras de arte completam um cenário imperdível para os amantes da arte.

Os sepulcros reais estão situados na zona central da igreja do mosteiro, que funciona como Panteón Real da família de Isabel a Católica. Essas sepulturas são consideradas uma joia artística da escultura espanhola. Destacam-se pela sua forma inusitada de uma estrela de oito pontas e pela qualidade de textura das figuras de alabastro. As estátuas jacentes dos reis são cheias de detalhes: a rainha tem nas mãos um Livro de Horas. Não encontrei uma fotografia tirada de cima e que mostrasse melhor as estátuas dos reis, acho que não existe. Ao vivo, a visão não é muito melhor que a foto, pois não se consegue ver todos os detalhes. Mas é uma obra belíssima!


O sepulcro de Alfonso, Príncipe das Astúrias (1453-1468), é uma obra monumental, que não aparece por inteiro na foto. Sua base está adornada por figuras de evangelistas, apóstolos, leões e cenas bíblicas policromadas. Ele morreu repentinamente a 5 de julho de 1468 em Cardeñosa, Ávila. Tinha apenas 14 anos de idade! A versão oficial da época aponta que a morte foi devida a uma doença, provavelmente a peste bubónica ou a tuberculose que assolava a região. No entanto, devido à morte súbita e ao contexto político, circularam rumores de que ele teria sido envenenado a mando do seu meio-irmão, o rei Enrique IV de Trastámara, que sucedera ao pai em 1464. Apesar da pouca idade, Alfonso era o líder de um grupo de nobres que se rebelaram contra Enrique IV. A sua morte inesperada desarticulou a liga nobiliária contra Enrique IV e abriu o caminho para que a sua irmã, Isabel, se tornasse a nova herdeira da coroa de Castela.
Os leitores devem estar achando estranho que nenhum dos nomes dos personagens citados tenha sido apresentado em letras maiúsculas! Não pensem que me esqueci de identificar os meus ancestrais! Essa família real não consta na minha árvore genealógica. Não são meus ancestrais. Mas a minha peregrinação me levou à Cartuja de Miraflores, atraída que fui pelas obras de arte e pela história dessa família. No mesmo dia visitei a Colegiata de Covarrubias, onde se encontram os túmulos de alguns ancestrais, e este será o assunto do próximo post.
__________________________
Carmen Souza Soares Reis
30 março 2026






















Comments