top of page

DON PELAYO - Santuário de Covadonga

  • Feb 24
  • 5 min read

Updated: Feb 26


Quando visitei o Santuário de Covadonga, meus olhos captaram a beleza natural da região dos Picos da Europa e a minha alma absorveu o sentido espiritual daquele lugar histórico e religioso. O Santuário de Covadonga tem uma ligação histórica com o início da Reconquista cristã da Hispania em 718. E tem um significado religioso que vem da crença que houve ajuda divina para a vitória dos cristãos contra os Mouros, porque Don PELAYO os levou a procurar refúgio numa caverna onde havia uma estátua da Virgem Maria. A origem do nome Covadonga vem da expressão latina Cova Dominica (Cueva de la Señora, em castelhano).


No complexo do Santuário de Covadonga existem a SANTA CUEVA - a caverna onde estão a estátua da Virgem e os túmulos de Don Pelayo e de outros membros da realeza asturiana, a BASÍLICA de COVADONGA - dedicada a Santa Maria la Real (a mesma Virgem de Covadonga, chamada “Santina” pelos asturianos) e a ESTÁTUA de PELAYO - representado sob o signo da "Cruz da Vitória" ou "Cruz de Pelayo". Essa cruz tornou-se o emblema do Reino das Astúrias, que foi o primeiro reino cristão da Hispania. Há lá também um MUSEU e uma outra IGREJA.


PELAYO foi o herói da Batalha de Covadonga e o primeiro Rei das Astúrias
PELAYO foi o herói da Batalha de Covadonga e o primeiro Rei das Astúrias

Don PELAYO foi um nobre visigodo que fugiu de Toledo logo depois da invasão dos Mouros em 711 e foi refugiar-se nas montanhas das Astúrias. Ele liderou as forças cristãs contra os muçulmanos do Al-Andaluz e tornou-se o herói da Batalha de Covadonga. Foi aclamado Rei das Astúrias em 722. Faleceu em 737 em Cangas de Onís e foi sepultado na igreja de Santa Eulália de Abamia. No reinado de Alfonso X “el Sabio” no século XIII, foi feito o traslado dos restos de Don PELAYO e de sua esposa GAUDIOSA para a Santa Cueva. No mesmo santuário, num lugar mais discreto, encontra-se o sepulcro de Don ALFONSO I "el Católico" (3º Rei das Astúrias) e de sua mulher ERMESINDA (filha de Don Pelayo).


Minha visita a Covadonga estava prevista no roteiro das visitas que me propus a fazer aos túmulos dos meus ancestrais para prestar-lhes minha homenagem. Já visitei santuários dedicados a santos católicos e estive em lugares onde ocorreram milagres, mas nunca encontrei um ambiente como o que vi na Santa Cueva: uma atmosfera solene de recolhimento e veneração que não se compara a nada que eu tenha visto antes e que é impossível de descrever. Acho emocionante, mas também inacreditável que eu tenha conseguido visitar o túmulo desse ilustre personagem que viveu no século VIII, 29 gerações antes de mim, e que é apenas um entre mais de 300 milhões de antepassados que integram aquela geração, dos quais eu talvez só conheça os nomes de uma meia dúzia.


"AQUI JACE EL REY DON PELAYO, ELEGIDO EN EL AÑO 716, QUE EN ESTA MILAGROSA CUEVA COMENZÓ LA RESTAURACIÓN DE ESPAÑA."
"AQUI JACE EL REY DON PELAYO, ELEGIDO EN EL AÑO 716, QUE EN ESTA MILAGROSA CUEVA COMENZÓ LA RESTAURACIÓN DE ESPAÑA."

Tudo que relatei sobre Don Pelayo, aqui e em artigos anteriores, consta de fontes que são fidedignas, mas contemporâneas. Por causa da carência de documentação própria da época (séculos VIII e IX), o contexto em que se encaixa a figura do herói da Batalha de Covadonga é de difícil interpretação histórica.

A primeira menção a um personagem com atribuições senhoriais depois da derrota dos visigodos em Toledo em 711, encontra-se num documento de 812 denominado Testamentum Regis Adefonsi (Testamento do Rei Afonso), que descreve um nobre de nome Pelagius (Pelayo em castelhano) que teria lutado na região de Astúrias numa revolta contra o poder muçulmano em Covadonga, e possivelmente seria senhor do território onde se situa Cangas de Onís, onde teria vivido por volta de 715. Existe um ciclo de crónicas de Afonso III, que o descreve com maior detalhe, mas sua data é ainda posterior à do Testamento do Rei Afonso. A Crônica Bizantina-Arábica de 741 e a Crônica Moçárabe de 754 não mencionam a figura de Pelayo, nem a sua revolta em Covadonga. Segundo alguns autores, esse fato põe em dúvida a relevância ou a existência do próprio Pelayo e do mito de Covadonga. Eu digo: tenho certeza que nenhum desses autores esteve aonde eu estive...


Os muçulmanos fizeram várias alusões ao que eles chamam de rebelião. Vou citar a que aparece no livro Ajbar Machmua (uma coletânea de crônicas sobre a conquista do Al-Andaluz) e diz: "Os galegos, aproveitando a contenda civil entre os muçulmanos, em meados do século VIII, insurgiram-se contra o Islam e apoderaram-se de todo o distrito das Astúrias". Vê-se aqui uma nítida tendenciosidade política, pois os mouros nunca conseguiram dominar as Astúrias. Houve também um muçulmano chamado Al-Maqqari que descreveu os feitos de "um infiel chamado Belai, natural de Astúrias na Galícia". Essas crônicas muçulmanas foram escritas mais de um século depois dos supostos acontecimentos. E muitas crônicas cristãs também.


Referências descritivas de um nobre chamado Pelagius encontram-se em escritos do final do século IX, que lhe atribuem diversas origens. Para a Crónica Albeldense, Pelayo era neto de Rodrigo, o último rei visigodo de Toledo. (Eu encontrei um parentesco diferente: Pelayo era sobrinho paterno de Rodrigo.) Para outras fontes, ele era descendente dos reis Leovegildo e Recared, e filho do duque visigodo Favila. (Os parentesco estão corretos.)


O fato é que a figura de Pelayo foi convertida em mito e muito se escreveu sobre ele. Entretanto, quando se visita o lugar onde os fatos descritos teriam acontecido, e verifica-se que a tradição oral é confirmada por vestígios físicos, não há maneira de negar, nem de duvidar dos fatos que descrevi.


Lembro que esse Blog é pessoal, como tudo na vida... Então vou voltar à minha visita a Santa Cueva, para descrever um detalhe que me atraiu a atenção: duas "coroas votivas" de estilo visigótico, que estão suspensas nos dois lados da Virgem. Elas imitam a "coroa votiva suspensa" do Rei Receswinth que se encontra no Museu Nacional de Arqueologia em Madrid. Por acaso, eu já vi essa peça, que é um trabalho de ourivesaria citado como exemplo da arte visogótica da Hispania. Destaca-se pelas filigranas de letras pendentes, que formam a frase RECCESVINTHVS REX OFFERET (o Rei Recceswinth ofereceu). Esse rei era filho do Rei Chindaswinth, e irmão de Theodofredo, o avô paterno de Pelayo. Recceswinth era, portanto, tio-avô de Pelayo. O par de "coroas votivas" da Santa Cueva também tem letras pendentes, mas não consegui ver o que diziam... Fiquei curiosa!


Virgem de Covadonga - Santa Cueva
Virgem de Covadonga - Santa Cueva

A primitiva caverna de Santa Cueva era recoberta de madeira e conhecida como “o milagre de Covadonga” porque as vigas eram incrustadas na rocha e parecia milagre que não se desprendessem. Em 1777 houve um incêndio em que perderam-se a imagem da Virgem, jóias, cálices e todas as alfaias da capela. A imagem atual é do século XVI e foi doada pelo Cabildo da Catedral de Oviedo, para compensar a perda da imagem primitiva.


Para dar o devido crédito aos artistas asturianos, deixo registrado que a capela atual do interior da Santa Cueva é uma obra de estilo néo-românico do arquiteto Luis Menéndez Pidal e foi construída no fim da Guerra Civil Espanhola. Outra obra de destaque é o antipêndio do altar, feito por Juan José García Talens para a II Bienal de Barcelona, que mostra uma representação da Batalha de Covadonga. Pronto, citei!


Quando relembro a minha visita a Covadonga, eu primeiro me lembro do impacto de ver a estátua de Pelayo na esplanada em frente à Basílica, mas o que mais me tocou foi o ambiente de silêncio, respeito e devoção na Santa Cueva!


_______________________

Carmen Souza Soares Reis

24 Fevereiro 2026

 
 
 

Comments


Featured Posts
Check back soon
Once posts are published, you’ll see them here.
Recent Posts
Search By Tags
Follow Us
  • Facebook Classic
  • Twitter Classic
  • Google Classic

FOLLOW ME

  • Facebook Classic

© 2014 by Carmen Souza Soares Reis - Proudly created with Wix.com

bottom of page