CATEDRAL de OVIEDO - Panteón dos Reis das Astúrias
- Feb 21
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A minha jornada pelo Caminho das Estrelas já rendeu três artigos: um sobre Santiago de Compostela e dois sobre León. Na Catedral de Santiago, fui surpreendida pela descoberta dos túmulos dos reis da Galícia e León, entre os quais identifiquei a rainha BERENGUELA de BARCELONA como minha ancestral. Seu nome estava gravado na minha memória, pela nossa ligação genética repetida: eu descendo de quatro de seus filhos! Um deles é o rei FERNANDO II de LEÓN, que também está ali sepultado, junto com seu pai, o rei ALFONSO VII de LEÓN. O meu encontro com o que restou desses ilustres personagens da realeza da Galícia e de León foi muito importante, porque eu vislumbrei ali um sentido para a minha peregrinação!
Nos dois artigos seguintes, falei sobre a minha visita a León. Na Catedral, fotografei o belíssimo túmulo do rei ORDOÑO II de LEÓN, mas não o identifiquei imediatamente como meu ancestral. Na Basília de San Isidoro, fiquei chocada ao saber que os sarcófagos do Panteón Real guardam os restos de vários reis e rainhas, sem identificação alguma. Seus túmulos foram vandalizados e seus ossos foram espalhados durante a Guerra de Independência da Espanha. Muitos deles foram meus ancestrais...
Relembro esses fatos para explicar porque resolvemos sair um pouco de León e do trajeto do Caminho tradicional. Fomos às Astúrias visitar o berço dos meus ancestrais mais antigos, que iniciaram a Reconquista da Hispania. Partilho essa linha genética com os parentes Teixeira Leite do Brasil e de Portugal, e com os Monterroios e Lencastres da Casa de Vila Nova. Esses nossos ancestrais eram nobres visigodos que fugiram de Toledo na época da invasão dos mouros à Hispania. Vai ser preciso relembrar a História. Não há outro jeito...
Vamos começar por PEDRO "el Visigodo", que foi um dos 32 nobres cristãos que escaparam da invasão dos mouros em 711. Esses nobres fugiram de Toledo com suas famílias, tomaram o rumo do norte e chegaram até as montanhas da Cantábria. Pedro era o líder do grupo e foi aclamado Duque da Cantábria.
Em seguida vem DON PELAYO, que era primo do último rei dos visigodos e servia como guarda no palácio de Toledo. Ele foi capturado pelos mouros, passou algum tempo na prisão, mas conseguiu fugir. Seguiu o exemplo dos outros cristãos e rumou para o norte, de onde viera o seu pai, o Duque FAVILA da Galícia. Quando os mouros avançaram para o norte, DON PELAYO comandou a resistência vitoriosa dos cristãos em Cangas de Onis e foi aclamado Rei das Astúrias.
Esses dois líderes uniram-se para combater os mouros e selaram a sua aliança com o casamento dos seus filhos. ERMESINDA, filha de Pelayo, casou-se com o futuro DON ALFONSO I "el Católico", Rei de Astúrias e Galícia (herdou os títulos do sogro). Um dos filhos desse casal foi DON FRUELA I, Rei de Asturias e Oviedo, que teve uma relação amorosa com Dona ERMESINDA ROMAENS, Senhora de MONTERROSO, da qual resultou DON ROMAN, Conde de MONTERROSO, patriarca de uma família que emigrou para Portugal, onde tornou-se MONTERROIO. Esse assunto foi mencionado num artigo anterior, onde eu também mencionei que o mesmo DON FRUELA I havia sido o fundador da cidade de Oviedo, capital do Reino das Astúrias.
Essa parte mais antiga da minha genealogia é resultado de um trabalho feito pelo meu saudoso primo Dr. Luiz Dantas de Souza Soares, numa época em que não havia internet e só os livros contavam a História. Quando ele se transferiu para o Brasil, partilhou comigo os seus dados e me incentivou a seguir os seus estudos. Foi assim que me tornei genealogista.

HISTÓRIA DO ANTIGO PANTEÓN REAL
No século IX, o rei Alfonso II “el Casto” das Asturias iniciou a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora na sua nova capital de Oviedo, para abrigar os seus restos mortais e de sua mulher, a rainha Berta. A capela ficou conhecida como “Iglesia de Nuestra Señora del Rey Casto”.
O antigo Panteón Real ocupava o pórtico da igreja, entre o átrio e as naves do templo. Entrava-se na igreja por outra porta, na ala sul. Era um espaço pequeno, da largura da nave principal, com altura inferior a 3 metros. Tinha um teto de madeira. Acima desse panteón ficava o coro, que estava localizado no pórtico. Nos dois lados havia pequenos armários, um dos quais escondia a entrada da escada de acesso ao coro, e o outro servia para armazenar as alfaias usadas nas cerimônias religiosas. Esse panteón estava ligado ao santuário principal da igreja por uma larga porta perto do altar principal e havia também uma pequena janela que ligava o panteón ao santuário. Os cronistas da época relatam a presença de barras de ferro nessas duas aberturas, tão pesadas que quase impediam a entrada da luz do sol. Esse primitivo Panteón Real abrigou os corpos de membros da família real Asturo-Leonesa durante muitos séculos. Os túmulos eram tão próximos uns dos outros que não se podia caminhar entre eles. Por falta de espaço, alguns membros da família real foram enterrados em outros lugares da igreja. Nem todos foram sepultados nas paredes ou em túmulos isolados, alguns foram enterrados no chão, em sepulturas cobertas por lages de pedra sem enfeites e na maioria dos casos, sem incrições (motivo pelo qual muitos nunca foram identificados).
No Panteón Real, perto da entrada, havia um túmulo coberto por uma lápide rústica sem adornos ou inscrição. Tanto a tradição, como a localização privilegiada desse túmulo, levaram os historiadores a acreditar que seria o túmulo de Alfonso II "el Casto", o fundador da igreja e do Panteón Real.
Alguns membros da família real Asturo-Leonesa foram sepultados na antiga Iglesia de Nuestra Señora del Rey Casto, fóra do Panteón Real (2 deles são meus ancestrais e seus nomes estão em letras maiúsculas):
DON FRUELA I (f. 768) rei das Asturias, filho de Alfonso I “el Católico" e de Ermesinda Peláez.
Munia de Álava, mulher de Fruela I e mãe de Alfonso II "el Casto".
ELVIRA MENÉNDEZ (f. 921), mulher de Ordoño II de León e mãe de Alfonso IV de León e Ramiro II de León.
Urraca Sánchez (f. 956), mulher de Ramiro II e mãe de Sancho I of León.
Teresa Anzúrez (f. 997), mulher de Sancho I e mãe de Ramiro III de León.
TRASLADO DOS RESTOS REAIS PARA OVIEDO
No ano de 986, no auge do poderio muçulmano na Península Ibérica, o mouro Almanzor fez uma campanha militar contra o reino de León. Para evitar que os exércitos muçulmanos profanassem os restos mortais dos reis e rainhas que havia em León, Astorga e outros lugares, o rei Bermudo II de León ordenou o traslado dos mesmos para a Iglesia de Nuestra Señora del Rey Casto. Esses restos foram colocados em 7 caixas de madeira e levados para a cidade de Oviedo, mas não havia espaço suficiente no Panteón Real e eles foram depositados em outros lugares da igreja. As 7 caixas continham os restos mortais dos seguintes indivíduos (os nomes em maiúsculas são dos meus ancestrais):
1. ALFONSO III "el Grande" rei das Asturias e sua mulher JIMENA DAS ASTURIAS.
2. ORDOÑO II rei de León e suas duas mulheres ELVIRA MENÉNDEZ e SANCHA DE PAMPLONA (que também foi casada com o Conde Fernán Gonzalez).
3. RAMIRO II rei de León, Sancho I rei of León e sua mulher Teresa Ansúrez, ORDOÑO III rei de León e sua mulher Elvira.
4. FRUELA II rei de León e sua primeira mulher NUMILA JIMÉNEZ.
5. Elvira (provavelmente ELVIRA GARCEZ DE CASTELA, mulher de Bermudo II de Leon)
6. Urraca Sánchez, mulher de Ramiro II.
7. Vários infantes e infantas não identificados.
Após a morte de Almanzor e de seu filho Abd al-Malik al-Muzaffar, coube ao rei Alfonso V de León repopular a cidade de León e ele trasladou para lá uma grande parte dos restos mortais de reis e rainhas que seu pai Bermudo II tinha enviado para Oviedo. Mas anda ficaram no Panteón Real de Oviedo os restos dos reis ALFONSO III e FRUELA II, e das rainhas JIMENA (mulher de Alfonso III), Munia (mulher de Fruela I), ELVIRA MENÉNDEZ (mulher de Ordoño II), Urraca Sánchez (mulher de Ramiro II) e Teresa Ansúrez (mulher de Sancho I).
HISTÓRIA DO NOVO PANTEÓN REAL
No final do século XVII, o Panteón Real de Oviedo estava em péssimo estado de conservação, bem como a primitiva Iglesia de Nuestra Señora del Rey Casto, da qual ele fazia parte. Em 1696 o rei Carlos II de Espanha transferiu recursos de algumas comunidades asturianas para a Catedral de Oviedo, para manutenção e restauro da igreja primitiva. Anos mais tarde, o concelho da igreja enviou um memorando ao rei, relatando que as condições da igreja e do panteón permaneciam precárias, e o bispo Tomás Reluz anexou uma carta em que recomendava a demolição da igreja primitiva. Sua proposta foi aceita. No início do século XVIII, o nome desse bispo foi citado como figura principal na construção da nova Capilla de Nuestra Señora del Rey Casto.
O novo Panteón Real está localizado entre os pilares da nave del evangelio (nave esquerda), fechado por um portão de ferro, com a luz entrando por uma abertura oval. Houve muitas discussões a respeito da localização do novo panteón no fundo da Capela de Nuestra Señora del Rey Casto. Mas resultou que é a parte mais suntuosa da Catedral de Oviedo, ricamente decorada com entalhes de plantas e emblemas heráldicos. Em seis nichos, em meio a outras urnas funerárias, estão os restos de muitos membros da família real Asturo-Leonesa.

A grade de metal que restringe o acesso aos túmulos do Panteón Real foi instalada em 1713. É obra do artista Andrés García Casielles e contém no topo o brasão de armas do rei Felipe V de Espanha. Não é a única grade decorativa que existe na Catedral. Há outra semelhante, num outro altar ou capela.

No centro do Panteón Real está o único túmulo que restou do antigo panteón: um caixão de pedra com cobertura de mármore adornada de baixos relevos, que foi usado para transportar os restos mortais do rei Alfonso III “o Grande” das Astúrias e da sua mulher, a rainha Jimena, desde Astorga até Oviedo. O caixão contém um corpo cuja identidade permanece desconhecida e um enigmático epitáfio em Latim: “INCLVSI TENERVM PRAETIOSO MARMORE CORPVS AETERNAM IN SEDE NOMINIS ITHACII” que nunca foi decifrado a contento.

REIS E RAINHAS SEPULTADOS NO PANTEÓN REAL
Há divergências sobre quais membros da família real Asturo-Leonesa teriam seus restos mortais sepultados nas seis urnas barrocas do Panteón Real da Catedral de Oviedo. Há listas que incluem apenas 8 nomes e outras com até 16 nomes. Optei por copiar a lista mais longa.
(Os nomes dos meus ancestrais aparecem em letras maiúsculas):
FRUELA I das ASTURIAS (reinou 722-768), filho de Alfonso I "el Católico" e da rainha Ermesinda.
BERMUDO I "el Diácono" das ASTURIAS (f. 797), filho de Fruela da Cantabria, sobrinho de Alfonso I das Asturias, e sucessor de Mauregato das Asturias.
Alfonso II "el Casto" das Asturias (reinou 759-842), filho de Fruela I e neto de Alfonso I.
RAMIRO I das ASTURIAS (reinou 790-850), sobrinho e sucessor de Alfonso II e filho de Bermudo I.
ORDOÑO I das ASTURIAS (reinou 830-866), filho e sucessor de Ramiro I.
ALFONSO III "el Grande" das ASTURIAS (reinou 848-910), filho de Ordoño I e da rainha Nuña.
García I de León (reinou 871-914), filho de Alfonso III das Asturias e da rainha Jimena.
FRUELA II de LEÓN (reinou 875-925), filho de Alfonso III das Asturias e irmão de García I de León.
Rainha Munia de Álava, mulher de Fruela I e mãe de Alfonso II.
Rainha Berta, mulher de Alfonso II.
RAINHA NUÑA, mulher de Ordoño I e mãe de Alfonso III.
RAINHA JIMENA das ASTURIAS (f. 912), filha de García Íñiguez de Pamplona, mulher de Alfonso III e mãe dos reis García I, Ordoño II e Fruela II.
RAINHA ELVIRA MENÉNDEZ (f. 921), mulher de Ordoño II e mãe de Alfonso IV de León e Ramiro II of León.
RAINHA NUMILA JIMENA, mulher de Fruela II das Astúrias.
Rainha Urraca de Pamplona (f. 956), mulher de Ramiro II de León e mãe de Sancho I de León.
Rainha Teresa Ansúrez (f. 997), mulher de Sancho I de León e mãe de Ramiro III de León.
A história desse Panteón é longa e confusa, mas eu não poderia deixar de mencioná-la, por ser parte da minha genealogia e da jornada que me propus fazer. Como o artigo também ficou longo, resolvi deixar a viagem a Covadonga e a emocionante visita ao túmulo de Don Pelayo para o próximo artigo do meu Caminho das Estrelas.
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Carmen Souza Soares Reis
21 Fevereiro 2026






















Que belissima e trabalhosa história, que tens escrito e publicado dos nossos ancestrais de Espanha, muitos parabéns e o meu agradecimento por me proporcionares esta belíssima história genealógica.