CATEDRAL de SANTIAGO de COMPOSTELA - Panteón Real dos Reis da Galícia
- Feb 4
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Updated: Mar 31
A minha primeira viagem ao norte da Espanha aconteceu numa altura da vida em que eu não já não tinha a capacidade física para fazer o Caminho de Santiago a pé. Saí do Porto com uma prima e percorremos o Caminho Português em direção a Santiago de Compostela: passamos por Viana do Castelo, cruzamos a fronteira em Valença do Minho, passamos por Pontevedra e chegamos a Santiago de Compostela num fim de tarde. Encontramos a cidade cheia de peregrinos por todos os cantos! Tivemos pouco tempo para encontrar o nosso hotel, deixar a bagagem e chegar à Catedral a tempo de assistir à última missa daquele dia.

A catedral estava superlotada e houve a cerimônia do Botafumeiro no final da missa. A saída dessa missa foi complicada. Uma multidão de peregrinos deslocava-se em diversas direções, pois são muitas as portas da catedral. Nós tentávamos voltar para a Puerta de Platerías por onde tínhamos entrado. Tentando chegar à nossa saída no meio da multidão, vislumbrei a entrada do Museu da Catedral. Imediatamente a minha atenção desviou-se do roteiro da saída e dirigi-me àquela entrada. Quando cheguei, já estava encerrado o horário de visitas, mas a funcionária estava aguardando a saída dos visitantes e permitiu que eu desse uma olhadinha rápida num pequeno espaço onde havia umas relíquias de santos. Foi então que, no meu primeiro dia de peregrinação, encontrei naquele pequeno espaço justamente aquilo que eu precisava achar e nem sabia: túmulos de reis e rainhas galegos e leoneses, entre os quais estavam meus ancestrais mais remotos!
"Unha enorme cola de turistas agarda na nave central da Catedral de Santiago a bater a súa cabeza contra a fronte do Mestre Mateo. Mentres, os que foron os homes e mulleres máis ricos e poderosos da Galicia do seu tempo dormen, case em soidade, o soño das estatuas no Panteón Real, a pocos metros de distancia. Pouca xente coñece a súa historia." (Antiga citação em galego - autor desconhecido)
O Panteón Real que guarda os restos mortais de monarcas da Galícia está localizado na entrada do Museu da Catedral de Santiago, a pouca distancia do Claustro, em frente ao Tesouro do templo, onde um dia existiu a antiga Sala Capitular da Catedral de Santiago. Pouca gente se dá ao trabalho de entrar nesse local, porque a maioria dos visitantes são peregrinos enfocados na sua chegada ao santuário, ou seja: o fim do Caminho. Trata-se de um pequeno espaço, em cujo centro encontram-se guardadas relíquias de santos que foram acumuladas durante 1200 anos de história, e nas paredes laterais descansam os restos de personagens ilustres que integraram uma dinastia de monarcas da era medieval da Galícia. Ali estão Raimundo de Borgonha conde da Galícia, o rei Afonso VIII, o rei Fernando II, a rainha Berenguela mulher do rei Afonso VII, a rainha Joana de Castro mulher do rei Pedro I "o Cruel", e elevado à dignidade real, Pedro Froilaz conde de Traba, um curioso personagem daquela mesma época. Juntos, eles resumem uma boa parte da história da Galícia nos séculos XI e XII.
A surpresa de encontrar os túmulos dos meus ancestrais é difícil de descrever. Foi totalmente inesperado. Não era o objetivo da minha visita à catedral. Eu não tinha a menor ideia que ali estavam sepultados importantes personagens medievais que fazem parte da minha árvore genealógica. Mas estavam, e eu os encontrei. De repente passei a ver o sentido da minha jornada pelo Caminho das Estrelas. Haveria outros túmulos, em outros santuários do norte da Espanha. Encontrá-los passou a ser o meu objetivo. Minha viagem adquiriu um novo sentido: a busca dos restos dos meus ancestrais galegos, astures, leoneses e navarros seria a busca do meu Santo Graal...
Esses fatos passaram-se há quase dez anos. Depois dessa primeira viagem, seguiram-se outras, todas com roteiros muito interessantes, em que não faltaram o turismo e a gastronomia, mas o objetivo principal era sempre visitar os santuários onde repousam os meus ancestrais medievais. A cada um deles prestei minha homenagem e demonstrei minha gratidão. Sei que muitos sofreram provações, outros morreram por seus ideais, e alguns até tornaram-se heróis. Que repousem em paz!
Passo agora a discorrer sobre cada um dos personagens reais que estão sepultados no Panteón Real da Catedral de Santiago de Compostela.
Os nomes em LETRAS MAIÚSCULAS indicam os meus ancestrais.
Conde RAIMUNDO DE BORGONHA (1065-1107):
A estátua que orna a sua tumba mostra um rosto com longa cabeleira e vestimentas de cortesão, muito diferente da tradicional aparência bélica dos nobres medievais. Raimundo era filho do Conde GUILHERME I de BORGONHA e marido da Rainha URRACA de LEÓN (1082-1126), filha do Rei ALFONSO VI “el Bravo” (1047-1109), que herdou do seu pai o reino da Galicia e terras em Portugal. RAIMUNDO de BORGONHA fracassou na administração de Lisboa, Santarém e Sintra, que foram reconquistadas pelos mouros, e tentou ser o sucessor do reino, mas morreu prematuramente. Seu filho o Infante ALFONSO RAIMUNDEZ se tornou o Rei ALFONSO VII de LEÓN (1105-1157).

Pedro Froilaz, Conde de Traba (1086-1126):
Sua estátua funerária revela com minúcia os traços de um velho guerreiro abraçado à sua espada. Este personagem singular do tempo de ALFONSO VII está sepultado no Panteón Real da Catedral de Santiago, mas não tinha porque estar ali entre os reis. Mas o seu pupilo ALFONSO VII quis compartir com ele essa dignidade. E não é para menos: RAIMUNDO DE BORGONHA e Dona URRACA entregaram o Infante ALFONSO ao Conde de Traba para que o criasse e o preparasse para ser rei. O velho guerreiro cuidou do menino, escondendo-o em diferentes castelos da Galícia, lutando por mantê-lo a salvo das conspirações e tentativas de assassinato. O jovem ALFONSO concentrava as expectativas da aristocracia galega, encabeçada pelo Conde de Traba, e de parte do clero dirigido pelo arcebispo Diego Xelmirez, que desejavam formar um reino independente na Galícia. Em 1111 os dois coroaram o menino ALFONSO Rei da GALICIA na Catedral de Santiago. Logo os seus destinos se separaram, mas o Rei ALFONSO VII quis que o velho Pedro Froilaz compartlhasse a sua última morada na Catedral de Santiago, como havia planejado para si mesmo. Ele acabou sendo sepultado em Toledo, porque seu corpo foi recolhido pelo filho Sancho, herdeiro dos reinos de Toledo e Castela, que preferiu sepultá-lo na capital religiosa do seu reino, mas a sua mulher BERENGUELA está sepultada no Panteón Real da Catedral de Santiago.

BERENGUELA DE BARCELONA (1108-1149):
Sua tumba é a mais discreta do Panteón Real. BERENGUELA era filha de RAMÓN BERENGUER III Conde de BARCELONA, e sua mulher DULCE ALDONZA DE GÉVAUDUN Condessa de PROVENCE. Seu casamento com ALFONSO VII (1105-1159) realizou-se por conta da política de alianças dos diferentes territórios cristãos da Península Ibérica. Ela foi mãe de dois reis e de duas rainhas consortes e os quatro são meus ancestrais: SANCHO III Rei de CASTELA, FERNANDO II Rei de LEÓN, CONSTANCE Rainha da França (mulher de Luiz VII) e SANCHA Rainha de Navarra (mulher de Sancho IV). BERENGUELA capitaneou a defesa de Toledo, quando as tropas muçulmanas queriam reconquistar a capital daquele reino. Ela faleceu em Palencia em 1149. Seu corpo foi trazido para Santiago para ser sepultado no local que seu marido pretendia para seu descanso eterno, embora ela o tenha sepultado em Toledo.

Joana de Castro (f. 1374):
Outra rainha que repousa no Panteón Real é Dona Joana de Castro, uma nobre galega que casou-se com Pedro I "o Cruel" Rei de Castela, no século XIV, uma época bem posterior àquela em que viveram os outros monarcas ali sepultados. Ela era filha de Dom Pedro Fernandes de Castro, senhor de Lemos, e Dona Isabel Ponce das Astúrias. Foi senhora de Dueñas e Ponferrada, e Rainha Consorte de Castela.

FERNANDO II e AFONSO IX:
Pai e filho repousam juntos. Suas estátuas funerárias mostram os dois reis na plenitude da sua maturidade, com longas túnicas de cortesãos.
FERNANDO II foi Rei de Galícia e León entre 1157 e 1188, e manteve uma relação muito tensa com Portugal. Casou-se primeiro com Dona URRACA de PORTUGAL, filha de Dom AFONSO HENRIQUES, o nobre que emancipou Portugal do reino de Galícia e León, mas essa aliança não foi adiante porque eles eram parentes próximos e sucederam-se muitos conflitos até a derrota dos portugueses em Badajoz. FERNANDO II impulsionou o progresso das cidades galegas, outorgando-lhes direitos para se protegerem dos senhores feudais. Seu reinado foi de esplêndida vitalidade cultural na Galícia: ergueram-se catedrais, surgiram a poesía e a lírica, escreveram-se os Cancioneiros, e Mestre Mateo esculpiu o Pórtico da Glória da Catedral de Santiago.
ALFONSO IX reinou entre 1188 e 1230. Casou-se em 1191 com sua prima Teresa de Portugal, na esperança que esse casamento resultasse numa aliança com Portugal, mas os nobres galegos e leoneses não conseguiram reconciliar-se com o país vizinho. O casamento foi anulado com base na consanguinidade. Casou-se em 1197 com outra prima, BERENGUELA de CASTELA e foram pais do futuro Rei de Castela FERNANDO III “o Santo”. Esse casamento também foi anulado em 1204, pelo mesmo motivo. ALFONSO IX entrou em guerras contra portugueses e castelhanos e venceu os mouros na Estremadura. Morreu em 1230 em Sarria, durante uma peregrinação a Santiago de Compostela. Seu filho FERNANDO III herdou os reinos de Castela e Toledo em 1217 e foi coroado Rei da Galícia e León em 1230, unificando as coroas de Castela, León e Galícia, consolidando o seu poder, e expandindo os territórios cristãos na Península Ibérica.




A minha visita ao Panteón Real dos Reis de Galícia foi obra do acaso que marcou o início de uma longa peregrinação pelo Caminho das Estrelas, em que se delineou como objetivo o de encontrar os restos dos meus ancestrais medievais que deixaram seu nome gravado na memória dos antigos reinos da Espanha.
Nos artigos seguintes, falarei sobre as visitas que fiz a outras catedrais e mosteiros onde estão sepultados os meus ancestrais do norte da Espanha.
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Carmen Souza Soares Reis
4 Fevereiro 2026






















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