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CATEDRAL DE LEÓN - a "Pulchra Leonina"

  • Feb 9
  • 7 min read

Updated: Feb 19

Continuamos a nossa viagem pelo Caminho das Estrelas. No artigo anterior, falei sobre o motivo da minha emoção na visita à Catedral de Santiago de Compostela. A inesperada descoberta dos túmulos dos meus ancestrais revelou-me o sentido da minha peregrinação pelo Caminho das Estrelas. A minha primeira viagem ao norte da Espanha (e as subsequentes) adquiriram um sabor especial, porque eu vislumbrei o objetivo que daria um novo sentido de valor a todo o tempo que dediquei ao estudo da Genealogia da minha família. Ancestrais medievais que eu só conhecia de nome transformaram-se em pessoas reais de carne e osso, que viveram e morreram, e o mundo não as esqueceu!


Apesar da minha família ser toda portuguesa, agora tenho a confirmação - por teste de DNA - que uma significante percentagem da minha composição genética vem do norte da Espanha. Mas na época dessa viagem, eu ainda não tinha o resultado desse teste, e a minha certeza de descender desses personagens medievais baseava-se apenas na confiança que eu deposito nas minhas pesquisas genealógicas.


Mas vamos voltar ao Caminho... Saimos de Compostela, na GALÍCIA, em direção a LEÓN, com algumas paradas previstas no roteiro. A Galícia é o berço dos ancestrais do meu bisavô BERNARDO TEIXEIRA LEITE, cujo pai pertencia à família MONTERROIO da Casa de Vila Nova, em Castelões. Essa família adotou o nome da sua propriedade na Galícia, que tornou-se um município da província de Lugo. Chama-se MONTERROSO e fica quase exatamente no centro geográfico da comunidade autônoma da Galícia.


Achei muito interessante ver, logo à entrada de MONTERROSO, uma placa indicando o caminho para a igreja: Paróquia de VILA NOVA! Uma imensa coincidência, sem dúvida, mas não passa disso, porque o Casal de VILA NOVA já existia em Castelões em 1548 (data de uma "vedoria" existente nos arquivos de Penafiel), e os Monterroios só entraram para a família do meu bisavô em meados dos anos 1600s. Essa linhagem começa no século VIII, quando DONA ERMESINDA ROMAENS, filha herdeira de DON ROMAN, Senhor de Monterroso e Santa Marta de Ortigueira, teve um filho natural de DON FRUELA I, rei das Asturias e fundador da cidade de Oviedo. Esse filho, batizado com o nome do avô, foi herdeiro das terras de Monterroso e Santa Marta de Ortigueira. Os Senhores de Monterroso viveram nessas terras até o século XIV, sendo DON VASCO GIL o último Senhor que morreu na Galícia. Seu filho ALVARO VASQUES passou para Portugal e viveu em Riba Douro no século XIV, tempo do rei Dom Fernando (1367 a 1383), e o apelido Monterroso tornou-se MONTERROIO em Portugal.


No século XVII, duas irmãs que eram 5ª netas de ALVARO VASQUES MONTERROIO foram senhoras da Casa de Vila Nova em Castelões: Antonia de Aguiar Monterroio casou-se com LOPO TEIXEIRA DE SEIXAS, senhor da Casa de Vila Nova, mas não tiveram filhos. Ele faleceu em 1619 e deixou a Casa de Vila Nova para seu filho natural MANUEL TEIXEIRA DE SEIXAS, que ali havia sido criado como filho legítimo, e estava casado com uma cunhada do seu pai: MARIA DE AGUIAR MONTERROIO. As duas irmãs Monterroio faleceram no ano de 1657. Manuel viveu até 1660 e deixou a Casa de Vila Nova para seu filho PEDRO VIEIRA MONTERROIO (1617-1675). O sobrenome Monterroio foi usado pelos nossos ancestrais de Castelões desde o século XVII até meados do século XIX, quando um tio paterno do meu bisavô Bernardo Teixeira Leite tornou-se herdeiro de Vila Nova e casou-se com uma Lencastre. Os descendentes de Rodrigo Monterroio e Ana de Lencastre optaram por usar o sobrenome materno, mas isso não invalida o fato que os primos Lencastre da Casa de Vila Nova e os Teixeira Leite do Brasil e de Portugal tem o mesmo sangue dos Monterrosos da Galícia.


Nossa visita a MONTERROSO foi rápida. Passamos pelas igrejas de Santa Maria de Arada e de San Cristovo de Novelúa. Achamos o nome Vila Nova ligado ao cemitério: Necropolis San Pedro de Vila Nova. As igrejas eram antigas, mas não tanto quanto o passado remoto em que viveram os descendentes de Dona ERMESINDA ROMAENS e do rei DON FRUELA.


Entramos na província de León e paramos em PONFERRADA, uma das paradas do Caminho de Santiago, onde há um lindíssimo castelo medieval muitíssimo bem conservado, que desafia a passagem dos séculos. Encontramos muitos peregrinos nesse lugar, porque o castelo dos Templários é uma atração espetacular, em que não faltam o característico fosso e a ponte levadiça. Para mim, a atração principal foi a maravilhosa Biblioteca dos Templários, que me proporcionou uma viagem no tempo, visitando o rico universo daqueles monges-cavaleiros. O objetivo desse Blog não é Turismo, mas não posso deixar de recomendar que visitem essa pequena cidade leonesa. Além do castelo, há um outro museu que conta a história local e uma linda igreja, a Basílica de NS da Encina, com uma torre sineira do século XVII, que merecem uma paradinha no itinerário de qualquer viajante.


A cidade de LEÓN é muito simpática, com diversas atrações turísticas, e tivemos a sorte de chegar lá justamente na semana em que se realizava uma Feira Gastronômica, que foi inesquecível. Em matéria de comida, essa província espanhola está no topo da lista!


A cidade estava repleta de peregrinos, muitos dos quais fazem o Caminho de Santiago com parcos recursos financeiros, pois relutam até em visitar os santuários que cobram 5 euros de entrada. É triste, pois perdem o imperdível! Em León há dois santuários magníficos: a Catedral de León, considerada a mais bela catedral espanhola, e a Basílica de San Isidoro, onde se encontra o Panteón dos Reis de León e importantes relíquias da cristandade. O presente artigo focaliza a Catedral. O próximo será sobre a Basílica de San Isidoro.


A Catedral de Santa Maria de Regla de León é chamada Pulchra Leonina (Bela Leonesa) e faz juz ao nome, pois é a Catedral mais bonita da Espanha. Considerada Monumento pelo govêrno espanhol através de Ordens Reais assinadas em 1844 e 1845, é uma grande obra de estilo gótico de influência francesa. A construção da Catedral de León teve início no século XIII e levou ao extremo a desmaterialização típica da arte gótica: as paredes foram reduzidas a um mínimo e substituídas por vitrais coloridos que transformam a luz natural em elemento artístico, narrativo e místico. A Catedral de León possui uma das maiores coleções de vitrais medievais que existe no mundo! Uma visita turística imperdível!


Um exemplo dos vitrais da Catedral de León
Um exemplo dos vitrais da Catedral de León

O único monarca sepultado na Catedral de León é o rei ORDOÑO II de LEÓN. Isto revela a sua importância histórica no reino de León. A Catedral encontra-se onde era o seu palácio, pois ele o doou para a construção de um santuário em agradecimento a Deus por sua vitória numa batalha contra os mouros. Esse nosso ancestral reinou nas Astúrias desde 910 e em León desde 914 até a sua morte em junho de 924. Era filho do rei ALFONSO III "el Magno" das ASTURIAS e JIMENA de PAMPLONA. Foi casado com ELVIRA MENÉNDEZ, de quem teve 4 filhos e 1 filha (nosso ancestral RAMIRO II era o 3º filho). Durante uma de suas campanhas militares, em janeiro de 921, ORDOÑO II chegou a Zamora e encontrou sua esposa morta. Ele casou-se mais duas vezes, mas não teve mais filhos.


Como existe dúvida se ele faleceu em Zamora ou em León, encontrei um texto em castelhano arcaico, que narra seus últimos momentos e seu entêrro solene na Catedral de Santa Maria. Fica claro que ele adoeceu em Zamora e foi sepultado em León, mas Lucas de Tuy esclarece que quando ele se sentiu doente, foi logo levado de Zamora para León, onde faleceu.


Despues tornose para Leon, et desi fuesse para Çamora. Et estando y adolescio et muriose dessa dolentia. Et fue enterrado en Leon en la eglesia de Santa Maria, que es la Cathedral. Et fue el so enterramiento fecho muy onrradamientre. Pero dize don Lucas de Tuy que quando este rey don Ordonno se sintio dolient, que se fizo luego levar para Leon, et que y murio.


O túmulo de ORDOÑO II é uma jóia artística e um dos monumentos funerários mais importantes da Catedral de León. Está situado na girola da catedral atrás do altar-mór. Confesso que procurei vê-lo pela fama cultural da sepultura, sem me dar conta que esse rei estava ligado à minha família. Mais uma vez, fui levada a encontrar o que restou de um ancestral que o mundo não esqueceu... só que a emoção veio depois, quando me dei conta de quem era ORDOÑO II... Mas voltei a León, anos depois!


Mausoléu do rei Ordoño II na Catedral de León
Mausoléu do rei Ordoño II na Catedral de León

Outro aspecto do túmulo de Ordoño II na Catedral de León
Outro aspecto do túmulo de Ordoño II na Catedral de León

A importancia de ORDOÑO II de LEÓN (871-924) vem da Reconquista cristá da Hispania. Ele obteve vitórias notáveis contra os mouros: o saque de Évora (Talavera) em 913, a batalha de San Estebán de Gormaz em 917 junto com o rei Sancho Garcés de Navarra, contra o Emir de Córdoba Abd-ar-Rahman III, e a conquista de Arnedo e Calahorra em 918, contra os Banu-Qasi. Apesar da sua derrota em Valdejunquera em 920, ele sempre manteve uma postura ofensiva, recuperando posições e fortificando locais estratégicos, mesmo depois de várias reações do Emirado. As vitórias de ORDOÑO II foram cruciais para expandir a fronteira leonesa para o sul do Rio Douro e para fortalecer o Reino de León.


Tomei a liberdade de inserir um mapa da Península Ibérica (Hispania) durante a Reconquista cristã, da época em que os líderes cristãos já tinham recuperado todos territórios ao norte do Rio Douro. Nesse mapa também aparecem algumas das cidades onde Ordoño II esteve lutando contra os mouros. Reparem que Évora está no mesmo lugar, mas Portugal ainda não existia... Para finalizar, não pude resistir à tentação de incluir uma imagem do rei ORDOÑO II de LEÓN, por mais terríveis que nos pareçam essas representações gráficas do período medieval... Mas é o que temos, além da nossa imaginação!


Ordoño II - miniatura medieval do acervo da Catedral de León
Ordoño II - miniatura medieval do acervo da Catedral de León

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Carmen Souza Soares Reis

9 Fevereiro 2026

 
 
 

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