BURGOS - a Cidade do Herói EL CID
- Mar 9
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Updated: Mar 12
Burgos, a capital histórica do antigo Reino de Castela, foi fundada em 884. Uma linda cidade medieval com muitas atrações, especialmente para quem curte História e Arquitetura. Visitei Burgos em 2016 como parte do meu Caminho das Estrelas. Aguardava a chegada nessa cidade com grande emoção, pois sabia que ali tinha vivido o herói El Cid Campeador. Se eu não soubesse, ficaria sabendo, pois a marca registrada de Burgos é um monumento à sua memória e o seu nome é lembrado em diversos lugares, como o hotel Mesón del Cid onde nos hospedamos.
Naquela ocasião, meu único elo com esse herói da Reconquista era a admiração pelos seus feitos heróicos, mostrados no filme que toda a minha geração assistiu, com Charlton Heston encarnando o personagem. Essa circunstância mudaria com o tempo, mas isso já é outro assunto...

Além da sua rica herança medieval, Burgos deve sua fama à Catedral de Santa María de Burgos, que desde 1984 integra o Patrimônio Mundial da UNESCO. A construção dessa catedral gótica começou no século XIII, ao mesmo tempo que as outras grandes catedrais francesas, e terminou na virada dos séculos XV e XVI. Sua esplêndida arquitetura e excepcional coleção de obras de arte – pinturas, retábulos, túmulos, vitrais e o famoso cadeiral do côro – são um verdadeiro compêndio da história da arte gótica. Mesmo quem não tem grande conhecimento de arte pode se maravilhar com a beleza dessa catedral!
O túmulo em que repousam os restos de Rodrigo Díaz de Vivar e de sua mulher Ximena está situado no cruzeiro da Catedral de Burgos e não passa despercebido a nenhum visitante! O filme de Hollywood mostrou à minha geração um herói cuja bravura e sabedoria foram fundamentais para a formação do reino de Castela e León. Mas filmes são ficção… Chegar à frente do seu túmulo equivale a cair na real, porque a gente se dá conta de que El Cid não era um herói de ficção cinematográfica. Rodrigo Díaz de Vivar era um homem de carne e osso, que amou e foi amado, lutou e venceu batalhas, foi traído e injuriado, mas foi, sobretudo, respeitado e admirado até pelos Mouros, que lhe atribuíram o respeitoso apelido de El Cid (Sidi = Senhor).


Don Rodrigo Díaz de Vivar morreu em Valencia em 1099, mas a sua história não terminou ali porque seus restos deram muitas voltas desde aquela data… Quando os Mouros recuperaram Valencia, Doña Ximena fugiu com o corpo do marido e foi buscar refúgio no Mosteiro de São Pedro de Cardeña. Ela escolheu o mesmo lugar histórico que acolheu seu marido durante o exílio, para acolhê-lo depois da morte. Ela faleceu em 1115 e foi sepultada junto ao marido na capela do Mosteiro de Cardeña, onde mais tarde o rei Alfonso X "el Sábio" mandou construir um mausoléu. Esse lugar de descanso do nosso herói não escapou ao saque dos exércitos napoleônicos em 1808: seu túmulo foi vandalizado e dizem até que levaram alguns ossos como relíquias para outros lugares da Europa. Os que sobraram foram devolvidos a Cardeña, mas depois de algum tempo, o Mosteiro ficou em situação de abandono e os seus ossos foram parar na Prefeitura de Burgos.
Finalmente, os restos de El Cid Campeador e de sua esposa Doña Ximena foram depositados no cruzeiro da Catedral de Burgos em 21 de julho de 1921, como parte das comemorações do 700º aniversário do início da construção da Catedral. Assim, a cidade de Burgos homenageou o seu herói e realizou um enterro digno dos seus restos. Os jornais da época relatam o traslado dos restos de El Cid para a Catedral: “uma cerimônia civil e religiosa, com muita pompa, pelo trajeto da Prefeitura (Casa Consistorial) na Plaza Mayor até a Catedral de Burgos, onde houve missa solene com Requiém, seguida de sepultamento solene”. A importância desse evento pode ser avaliada pelas autoridades presentes: o rei Alfonso XIII, a rainha Victoria, o infante Fernando, os bispos de Burgos e de Valência, o núncio papal e ministros do governo espanhol.
QUEM FOI RODRIGO DÍAZ DE VIVAR:
Rodrigo Díaz de Vivar nasceu em 1044 na aldeia de Vivar (hoje Vivar del Cid), a 7 quilômetros de Burgos, e morreu em Valencia em 10 de julho de 1099. Tornou-se um líder militar de Castela e depois de exilado, conquistou e governou Valencia. Ele foi educado na corte de Castela, como escudeiro do futuro rei Sancho II, filho de Fernando I "el Magno", que morreu em 1065. Depois da morte do pai, Sancho II conquistou a cidade cristã de Zamora e a cidade moura de Badajoz. Rodrigo Díaz lutou junto ao novo rei contra os mouros de Zaragoza, quando o emir Al-Muqtadir rendeu-se e tornou-se vassalo de Sancho. Daí por diante, Al-Muqtadir e os mouros de Zaragoza juntaram-se às tropas de Castela na luta contra os aragoneses. Dizem que o título honorífico de "El Cid Campeador" foi dado a Rodrigo Díaz depois da batalha em que o exército de Sancho II e Al-Muqtadir saiu vitorioso e conseguiu eliminar o rei Ramiro I de Aragón. El Cid lutou e venceu um cavaleiro aragonês em campo aberto com tanta bravura que os mouros o aclamaram como Sidi (Senhor). O adjetivo Campeador refere-se à luta em campo aberto.
O rei Sancho II foi assassinado em 1072 e sua morte gerou muita especulação. Os nobres de Castela apontaram seus irmãos Alfonso e Urraca como mandantes do assassinato do rei. Como Sancho não deixou herdeiros, o reino de Castela e León passaria para o irmão Alfonso, seu inimigo, que se encontrava exilado em Toledo. Diz a lenda que quando Alfonso VI chegou a Burgos, teve que enfrentar os nobres de Castela liderados por El Cid, que o obrigaram a jurar em público, em frente à Igreja de Santa Gadea (Santa Águeda), que ele não tinha participado na conspiração para matar seu irmão Sancho. Essa crença é aceita pelos habitantes de Burgos, como prova a placa da foto abaixo. O episódio consta do Cantar del Mío Cid (poema épico do século XII), mas não consta de documentos contemporâneos sobre o rei Alfonso VI.

O Juramento de Santa Gadea é citado como uma das razões pelas quais El Cid teria sido exilado pelo rei Alfonso VI em 1081. Mas outros fatores podem ter contribuído para o fato: sua animosidade contra El Cid, o ciúme de alguns nobres que o levaram a antagonizar El Cid, uma acusação de desvio de um tributo de Sevilha, ou o que uma fonte descreve como a tendência que teria El Cid de insultar os poderosos. De toda maneira, a lenda do juramento sobreviveu porque reforça a bravura de El Cid e também explica a atitude de retaliação que Alfonso VI adotou contra ele: o decreto de exílio e a transferência de seu posto de Armiger Regis para um conde que era seu inimigo.
Mas o exílio não foi o fim de El Cid. Ele tornou-se um militar independente, um mercenário profissional. Primeiro, foi a Barcelona oferecer seus serviços aos Condes, que não aceitaram. Em seguida, ofereceu seus serviços a Yusuf al-Mutamin, que reinava sobre a Taifa de Zaragoza, e serviu a ele e ao seu sucessor, Al-Mustain II. Defendeu Zaragoza contra os ataques de Al-Mutamdhir, de Sancho I de Aragón e de Ramón Berenguer II, que ele manteve em cativeiro em 1082.
Em 1086 a Península Ibérica foi invadida pelos Almoravids e houve uma grande batalha em que o exército de León, Aragón e Castela foi derrotado pelos mouros do Al-Andaluz (exércitos de Badajoz, Málaga, Granada e Sevilha). Alfonso VI e 500 dos seus cavaleiros conseguiram escapar da morte fugindo para Toledo. Apavorado com essa derrota, Alfonso VI resolveu chamar de volta do exílio o melhor combatente cristão da Península Ibérica. É fato que El Cid esteve na corte em julho de 1087, mas o que aconteceu depois não está documentado.
Sabe-se que, no ano seguinte, El Cid organizou um exército de mouros e cristãos, com o objetivo de criar seu próprio feudo na cidade mediterrânea de Valencia, então governada pelo emir Al-Qadir. Diversos obstáculos surgiram. O primeiro foi Ramón Berenguer II, governador de Barcelona, que El Cid derrotou na batalha de Lévar, em maio de 1090, e manteve prisioneiro. Seu filho, Ramón Berenguer III, pagou o resgate do pai e casou-se com Maria, a filha mais moça de El Cid, para garantir sua sobrevivência em futuros conflitos. Não canso de admirar os motivos dos casamentos medievais!
A influência de El Cid aumentou, e ele começou a sitiar Valencia em outubro de 1092. Ele não conseguiu romper os muros da cidade e o cerco terminou em maio de 1094, mas ele já tinha estabelecido seu reino na costa do Mediterrâneo. Oficialmente, ele governava em nome do rei Alfonso VI, mas na realidade era completamente independente! A cidade era, ao mesmo tempo, moura e cristã. Mouros e cristãos serviam como soldados e administradores. Em 1096, as 9 mesquitas de Valencia foram transformadas em igrejas e um bispo francês foi nomeado arcebispo da cidade.
Em 10 de julho de 1099, El Cid foi acidentalmente atingido por uma flecha, durante um cerco dos bérberes à cidade de Valencia. A cena final do filme é fictícia: seu corpo não foi amarrado ao cavalo que galopou à frente do exército cristão que afugentou os mouros. Na realidade, eles não puderam defender Valencia. Alfonso ordenou que se pusesse fogo à cidade para evitar que caísse nas mãos dos mouros. Valencia foi capturada em 5 de maio de 1109 e não voltaria a ser cristã por mais de 125 anos. Ximena conseguiu fugir para Burgos levando o corpo do marido. O resto da história já foi contado: ele foi enterrado no Mosteiro de San Pedro de Cardeña, e hoje seus restos estão sob a lápide do cruzeiro da Catedral de Burgos.
A FAMÍLIA DE RODRIGO DÍAZ DE VIVAR:
El Cid casou-se em julho de 1074 com uma nobre, Doña Jimena Díaz de Oviedo (Ximena em castelhano antigo), que seria filha de Diego Rodriguez das Astúrias, Conde de Oviedo (desconhecido nos documentos da época), ou de outro conde mencionado no Cantar del Mío Cid, cujo nome também não é confirmado pelos estudiosos. Todas as fontes mencionam que o casamento foi arranjado pelo próprio rei Alfonso VI, mas que El Cid apaixonou-se à primeira vista pela jovem que escolheram para sua noiva. Eles tiveram 3 filhos. O único rapaz, Diego Rodríguez, morreu solteiro em 1097 na Batalha de Consuegra contra os Almoravids. As duas filhas, Cristina e Maria, casaram-se com nobres. Já mencionei, em um dos parágrafos acima, que a filha Maria Rodriguez de Vivar (chamada Sol, na literatura) casou-se com Ramón Berenguer III, Conde de Barcelona.
A filha CRISTINA RODRÍGUEZ de VIVAR (chamada Elvira, na literatura) casou-se com RAMIRO SANCHEZ de MONZÓN (1070-1116), filho bastardo de SANCHO GARCÉS de MONZÓN, Infante de NAVARRA (1039-1083), filho de GARCÍA SÁNCHEZ III "el de Nájera" Rei de PAMPLONA / NAVARRA (1016-1054). Este rei era irmão de dois outros reis. Seu irmão FERNANDO "el Magno" Rei de CASTELA e LEÓN (1017-1065) foi o pai dos reis Sancho II e Alfonso VI com que El Cid conviveu. O outro era RAMIRO SÁNCHEZ I Rei de ARAGÓN (1007-1063), seu meio-irmão.
O casamento de El Cid elevou seu status social, e os casamentos de suas filhas conectaram sua família à realeza. Ainda há monarcas europeus que descendem dele, pelas linhas de Navarra e de Foix. RODRIGO DÍAZ de VIVAR é ancestral dos monarcas da França, da Inglaterra e de outras casas reais da Europa, pois todas essas famílias reais descendem de seu neto GARCÍA IV "el Restaurador" Rei de NAVARRA (1100-1150), filho de CRISTINA RODRÍGUEZ e RAMIRO SÁNCHEZ.
Pelo uso de letras maiúsculas na grafia dos nomes acima, os leitores dos outros artigos do Caminho das Estrelas vão perceber que esses personagens são meus ancestrais... Todos descendem de SANCHA BEATRIZ, Infanta de CASTELA, Rainha de NAVARRA (1137-1177), filha de BERENGUELA de BARCELONA, Rainha de CASTELA (116-1148). Essa rainha é aquela cujo túmulo eu descobri por acaso na Catedral de Santiago, no primeiro dia da minha jornada pelo Caminho das Estrelas...
Quando estive em Burgos pela primeira vez, visitei o túmulo do herói El Cid. Depois que descobri o meu parentesco com ele, voltei a Burgos para visitar o túmulo do meu ancestral famoso. Nessa segunda viagem, fui acompanhada por uma prima que também é descendente dele, e foi muito gratificante poder compartilhar essa experiência emocional!
Todos os meus parentes de origem açoriana que descendem de GUILHERME DA SILVEIRA partilham essa ancestralidade, pois WILHEM VAN DER HAGEN (Guilherme da Silveira) era neto bastardo de JEAN "Sans Peur" Duc de BOURGOGNE (Jean I de Valois 1371-1419), filho de PHILIPPE "Le Hardi" Duc de BOURGOGNE (1342-1404), e neto de JEAN II "Le Bon" Roi de FRANCE (1319-1364). Uma citação desse parentesco pode ser encontrada no livro de James H. Guill "A History of the Azorean Islands" páginas 138 a 140.
O principal objetivo desse Blog não é Genealogia (embora a autora seja genealogista), mas os que se interessarem nesse parentesco com a realeza estão convidados a visitar uma árvore que se chama "Medieval Nobility" no Ancestry.com. Naquela árvore, como nos artigos desse Blog, os nomes escritos em letras maiúsculas são meus ancestrais, portanto, não será difícil seguir a linha dinástica. Se tiver dificuldade em acessar, me mande seu email através da opção CONTATO e eu poderei ajudar.
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Carmen Souza Soares Reis
10 Março 2026






















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